[Coluna NES] A memória pela boca

por Betho Wilson

Me despache! Tem de quê?
Duas frases que quando proferidas surgem cheias de aroma e sabor, aqui no nosso bairro e em qualquer lugar do mundo.
Lembro muito bem da felicidade que era ir até o monte comprar engasga gato e abafa banca, ou o geladão da famosa dona Tó e o acarajé de dona Antônia, ambas da rua 3 irmãos, banana real e cavaco na rua da Alegria, empanada com suco da saudosa Miúda na rua do meio próximo ao Maracujá. Que época prazerosa, que delícia de vivência.

O hábito de consumir quitutes preparados por mãos da culinária local sempre existiu, e chego até a dizer que antes era ainda mais presente esse comportamento, afinal de contas não havia tanta opção de locomoção para ir buscar fora e muito menos o famoso e atual serviço de entrega, o delivery e suas viagens rápidas (nem sempre).

Opções não faltava para atender a demanda de gosto de cada um aqui na área.
Na Santa Cruz, por exemplo, Merengue trazia aquele cozido disputadíssimo com seu ambiente limpo, poucas mesas, e a cervejinha para os adultos. Tínhamos que ir cedo, nada de “zap” para reservar lugar. Sem existir ainda as famigeradas hamburguerias, as opções da época eram duas: a vara mista da padaria do Vale das Pedrinhas com seu suco de laranja de 500ml, ô glória, ou se a ocasião sugerisse algo mais especial, era só descer até a Amaralina e pedir o Manga Larga no Baitakão, um sanduíche enorme que era comida vista-mar, à beira das águas salgadas de Amaralina.

Se hoje o carro do ovo passa pela porta entregando 30, 40 ovos com o som da descarga do motor estourando e a voz estridente do locutor fazendo paródias para vender seu produto, a 30 anos atrás era o carro do leite fermentado, o tal Yakult.
Esse fazia a alegria da criançada, o preço era bem mais baixo do que no mercado e a validade também, mas quem se importava? Não iria durar mais que uma semana mesmo, bora beber os lactobacilos que ainda estavam vivos, esse era o raciocínio.

Vender é a alegria de quem produz, ver boa saída de um quitute feito pelas próprias mãos e ainda receber elogios por isso é imensurável, mas, para quem compra, para quem consegue ter a moeda e satisfazer sua vontade e a vontade de quem se ama não tem preço. Isso está para além do consumismo, isso é poder fazer-se bem, é ajudar a economia local, de sua rua, comunidade ou bairro.

Ando por aí, vocês sabem. Caminho e frequento os lugares onde a vasta cultura de nosso bairro explode como um vulcão ativo, reencontro algumas das mulheres e alguns dos homens que lá atrás, antes da aposentadoria fizeram e comercializaram suas criações gastronômicas na luta da sobrevivência. Vender comida para comprar comida.

Muitas dessas pessoas já se foram, é a dança da vida, afinal de contas, “tudo que é vivo morre” (Ariano Suassuna, O alto da Compadecida)

A vida muda bastante a cada segundo, isso é indiscutível. Toda hora é um momento novo, mas o que tem essência permanece essência. Hoje a forma de fazer pode ter passado por uma transformação, a comunicação no mundo ganhou nova forma, contudo o hábito e o motivo são os mesmos, pessoas com seus dotes culinários criando e apresentando suas delícias para quem quer provar.

Parabéns a você que em busca de autonomia faz a vida acontecer sem procrastinar e é caçador e não a caça, sobrevivente nesse mundo cada vez mais industrializado.

Aproveito esse meu espaço aqui nessa coluna cultural desse site tão prestigiado no nosso bairro para desejar um feliz dia à todas as mães de todo tipo, biológica ou por adoção, por destino ou missão. Que o amor dos seus filhos possam ser o maior presente que cada uma receberá no domingo e em todos os dias, saecula seculorum.

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Redação NES
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