[Coluna NES] Do arrastão ao paredão

Por Betho Wilson

O ano era 1992, o ritmo que dominava e fazia ferver as comunidades de Salvador era o Samba Reggae que tinha como expoentes da época o Ilê Ayiê, o Olodum, o Muzenza, e o Malê Debalê com seus tambores rulfando e dobrando pelas mãos habilidosas de homens e mulheres que no dia a dia em suas casas desempenhavam papel comum, mas em dias de ensaios e apresentações se tornavam verdadeiros trovadores, senhores e senhoras do ritmo. Esse incrível movimento que surgiu preto e pobre logo se tornou uma potente plataforma de lançamento para a cultura afro baiana se firmar ainda mais. As roupas coloridas, colares, turbantes, penteados, vocabulário, elementos de matriz africana trazidos de volta hoje no movimento afropunk/afrofuturista, davam forte sinal de uma crescente afirmação do povo de comunidade, que então passava a ser visto (pelos gestores de cultura e seus interesses) como poetas e pensadores com suas letras e melodias falando de amor, de África, da Bahia, do orgulho e do suingue da cor, dando verdadeiras aulas de história, literatura e geográfica.


Uma característica fantástica e que para mim, dava o toque mágico nesse movimento eram os arrastões. Para quem desconhece, um arrastão era o momento em que um grupo musical após fazer ensaio aberto, caminhava com sua bateria pelas principais ruas e avenidas do bairro. Como não lembrar de estar em casa num sábado à tarde e ouvir chegando aquele som tribal e contagiante que fazia com que todos saíssem à rua para curiar ou participar daquela puxada percussiva que em cada batida fazia um convite para seguir junto tal procissão? A força visceral de um arrastão era medida pelos arrepios que causava da cabeça aos pés.


Por aqui, no Nordeste, tínhamos grupos de Samba Reggae como a Impacto Sonoro, a Suingue Magia, Explosão Cultural, ArtBahia, Amor de Eva, desfilando pelo bairro, nos fazendo sentir orgulhosos de uma musicalidade que nossa alma já conhecia de outras vidas, de outra dimensão, outro lugar. Memória afetiva pulsando.
O tempo, que é Rei, não destrói o que o homem construiu, ele ressignifica, transforma, movimenta, e por ter tal poder é que devemos enxergar no novo o que já foi velho, conhecendo-o para a partir desse encontro se entender.

A juventude negra do Nordeste de Amaralina e de toda a nossa cidade continua usando de linguagem própria para se manifestar, se dizer presente, se mostrar viva além do tempo.


Ao som de uma renovada (ou transformada) música Preta e de periferia, assim como foi e ainda é o Samba reggae, essa juventude agora do presente, recriou, ressignificou sua forma de se expressar para o mundo ao seu redor quando como em um balé coreografado joga seu corpo ao sabor do vento em movimentos plásticos com sorrisos largos, rememorando os passos já usados lá atrás e trazendo novos elementos que retratam seus anseios de agora.
Sua música? O pagodão. Sua moda? A da rua. Sua imagem? A do futuro, seu próprio futuro.
Não quero entrar no mérito do que era cantando antes e do que se canta hoje, temas de letras, peças de roupa, moralidade, etc. Entrar nessa seara, embora seja tentador, vai demandar muito de nosso tempo em uma discussão que certamente tirará o foco desse artigo nessa coluna. Então, se acalmem aí em suas cadeiras que eu me seguro aqui e sigamos.


O arrastão que caminhava pelas ruas levando musicalidade Preta aos quatro cantos do bairro deu lugar, ou se transformou no que hoje conhecemos como paredão, que, embora tenha uma definição diferente um do outro, nasce da mesma matriz: a cultura preta de nossa cidade.
Similaridades entre os dois movimentos? Sim, temos!


Nascem no gueto, nas periferias, musicalmente partem de uma mesma clave (matriz rítmica), o samba do recôncavo, socialmente tem uma cara (a da juventude preta), moralmente sofrem da mesma desconfiança ética de quem prefere opinar sem conhecer, tem apelo midiático, e movimentam um mercado lucrativo e crescente muitas vezes explorado por quem não deveria. Enfim.


Para deixar um pensamento final, quero dar evidência ao que para mim, é bem representativo nesse paralelo entre os dois movimentos, arrastão/paredão. Enquanto um se dava numa caminhada ritmada, arrastando a massa, o outro que se utiliza de veículos automotores para acontecer se dá parado, o que é mais que ironia do destino, é um ponto de reflexão importante sobre nós, nossos novos hábitos. Porque paramos? Quando foi que desistimos de musicar as ruas caminhando como um coral itinerante? Caminhar é preciso!
Arrastemo-nos mutuamente em um movimento constante na direção do futuro sem esquecer o passado.
Toda semente boa que cai em terreno fértil tende a brotar, crescer e dar bons frutos.

Êla Tempo.

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