[ Coluna NES] Olha quem morre, veja quem mata.

Por Betho Wilson

Hoje estou bastante chateado, confesso.
O motivo, não é o momento que estamos vivendo de pandemia, parece até que já estou me acostumando com esse isolamento que nunca acaba, todas essas restrições se fazem necessárias, mas vamos combinar que cansa demais nosso psicológico.

O que me chateou, me arrasou por completo nessa semana e que infelizmente já se tornou rotina para a camada de pele retinta desse país desorganizado e movido por desamor foram às duas mortes ocorridas no Rio de Janeiro, a do congolês Moïse Kabagambe, espancado covardemente por quem deveria paga-lo por seus serviços prestados e, pelo contrário, foi tratado como escória tendo sua vida e sonhos findados por homens que alimentam seus corações do mais puro ódio.

O outro caso tão terrível quanto o primeiro é o do Durval Teófilo Filho assassinado sem hipótese alguma de defesa por um homem que simplesmente julgou Durval como um potencial assaltante sendo que a verdade era de um homem retornando para sua casa após um dia de trabalho.

E o que existe em comum nos dois casos é a cor da pele dos homens mortos, a COR da pele que a séculos vem determinando quem vive e quem morre nesse país pintado como acolhedor, mas que, na verdade é racista ao extremo, esse país onde toda a mão de obra de base da sociedade é ocupada por corpos pretos, uma nação ainda que se orgulha do samba, da capoeira e, que enxerga apenas esses movimentos para monetizar o turismo, mas que, na verdade odeia seus criadores pretos descendentes de homens e mulheres outrora arrancados de sua terra natal para trabalhar extenuadamente, muitas vezes até a morte.

Eu estou a dois dias num estado de muita tristeza e frustração, a sensação de estar enxugando gelo no combate ao racismo tem me adoecido enquanto tais crimes contra nós, negros, me empurram para a luta no intuito de ajudar meus iguais a permanecerem de pé ante o ódio e de também revidar, pois, o revide nesse caso é legítima defesa.

Esse mês ainda me recordo que fazem sete anos da chacina do Cabula onde 12 pessoas, todos pretos, todos jovens, pasmem, num campo de futebol (entenderam aí?), a maioria deles sem passagem na polícia ou processos na justiça foram massacrados sem piedade alguma pelo braço armado do Estado que atua sem projeto de segurança pública agindo só na força do ódio contra quem tem na pele a força natural da melanina, um Estado que odeia o povo das favelas tentando a todo custo esconde-los, inviabiliza-los e só se lembra dessa camada quando precisa limpar a sujeira das ruas das grandes avenidas onde a elite branca transita livremente usufruindo do aparelhamento que deveria servir a todos.

Quero de coração me desculpar com cada leitor e leitora que me acompanha aqui nessa coluna, vocês sempre acostumados com meus textos que trazem leveza e assuntos referentes à nossa comunidade, mas inevitavelmente precisamos por o dedo na ferida e fazer com que a dor que esse gesto cause nos leve a fazermos algo de fato contra todo e qualquer forma de racismo.

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