[Coluna NES] Ressignificar é preciso

Por Betho Wilson

Segundo o antropólogo britânico Eduard B Taylor, cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades, adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade” o que nos leva a conclusão de que tudo é cultura.

Buscando a etimologia da palavra temos como compreensão que cultura é cuidar, resguardar e até venerar esse todo que nos cerca e somos nós mesmos e, em se tratando de nossos comportamentos em vivência social, fica evidente que a cultura pode ser boa ou má assim como nós somos bons e maus, seja por essência ou conveniência, mas nunca desacreditada.

Debruçado sobre os últimos acontecimentos ocorridos no nosso bairro, fatos dos quais nenhum de nós deveria se orgulhar pura e simplesmente por sermos contrários a violência praticada de todos os lados e até mesmo de quem deveria nos dar suporte e aporte no quesito segurança pública, chego a me encontrar num estado de desesperança.

Conviver por 4 décadas em estado de alerta, sentindo dia após dia a hostilidade polarizada e recrudescida por uma guerra real travada nas ruas, becos e vielas de bairros populares, forjando um cenário de pânico urbano pondo em lados opostos membros de uma mesma casta social, quase sempre pretos e pobres, manipulados por outros homens quase sempre brancos e ricos, que se apresentam como representantes legitimados por votos que os damos sem o menor remorso, fatalmente me colocou em um lugar de desconfiança total com discursos armamentistas, fundamentalistas, militarizados e unânimes saído de bocas de diferentes bandeiras ideológicas.

Antes que alguém se levante gritando por isenção e me acusando de nivelar bandeiras políticas por baixo e/ou em um.mesmo patamar eu já convido a buscar dados dos institutos de pesquisa como o IBGE ou o Atlas da Violência e constatar que independente de quem esteja no poder, é o pobre, preto e favelado visto sempre como alvo e, se ainda assim você ao comparar os dados ter o cinismo de dizer que com governo tal morreu menos gente é porque realmente você ainda não entendeu nada sobre sobreviver ao racismo estrutural.

A cultura de um lugar é o povo e seus costumes, e, parece que nós, moradores de Salvador, filhos do Nordeste de Amaralina, estamos nos acostumando com morte e violência. A normalização da crueldade como hábito manifestada em abordagens policiais exageradas ou ação de grupos armados que nos impõe terror está nos colocando em um lugar onde o errado é regra, é norma.

Somos o bairro do samba junino, dos arrastões percussivos, de grandes atletas esportivos, somos o distrito dos compositores, das grandes vozes e inventivos criadores de eventos e programas de laser, somos a gente das procissões e ritos religiosos manifestados na rua, somos o beco da cultura. Então eu pergunto: quando nos perdemos nessa estrada que conhecíamos tão bem? Qual o receio de retomarmos nossas vidas com uma sadia caminhada rumo a plenitude de todo o bairro?

Falo com segurança e fervor nas palavras por ser sabedor do antes e o depois e ter a propriedade de afirmar que o poder de voltar aos bons e velhos tempos está em nossas mãos. Voltar não é negar a evolução, voltar é ressignificar,  Sankofa, e a partir de aí perpetuar a paz de que tanto precisamos.

Cada morte de cada lado dessa guerra é uma tragédia. Cada lágrima derramada por pais e mães que perdem o calor do abraço de seus filhos tem o peso de mil oceanos e todos, absolutamente todos temos o dever de nos esforçar para então salvarmo-nos do descaso de quem deveria, mas não quer nos proteger.

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