[Coluna NES] Santa Alegria

“Em 325 d.C, o Concílio de Niceia, presidido pelo Imperador Constantino e organizado pelo Papa Silvestre I, fabricou e consolidou a doutrina da Igreja Católica, como a escolha dos livros sagrados e as datas religiosas. Ficou decidido também que a Semana Santa seria comemorada por uma semana (do domingo de ramos ao domingo de Páscoa)”**

Nosso encontro desse sábado não poderia deixar de tratar de outro assunto que não a celebração da Semana Santa, festa católica muito popular em todo o mundo cristão, e, que no Brasil, adquiriu algumas peculiaridades.
Crente ou ateu, todo mundo conhece a história da paixão e morte de Jesus, o galileu, nascido de uma virgem, que caminhou por toda a Judeia e Palestina anunciando o amor pleno, amor sem restrições. Esse enredo contado saecula seculorum já teve um variável número de manifestações artísticas: novela, filme, cordel, pintura, música, peça teatral, etc.

Apesar dessa celebração remeter a uma trágica traição que culminou em morte, aqui no nosso bairro, e em diversas localidades da Bahia de São Salvador as formalidades dão lugar a eventos que já são propriedade, intelecto/cultural do nosso povo.
É incrível assistir, por exemplo, uma partida de futebol entre homens travestidos com roupas femininas, o famigerado “Baba do Vinho”, um certame onde o êxito esta para além do triunfo, o ápice é a celebração, e eu não posso perder oportunidade de fazer referência à ressurreição de Jesus, que, ao acontecer, é testemunhada primeiro pelas mulheres que o seguiam.
Seria essa a origem de o Baba acontecer com homens vestidos de mulher?
Seguindo com a reflexão, a sexta-feira, um dia que, para diversos povos dentro de seus ritos e expressões religiosas, é tido como sagrado. No nosso caso, aqui, ela é o dia em que acontece a morte do Cristo, por isso algumas são as restrições para cumprir no seu decorrer, citando duas em especial, temos: o silêncio, e o consumo de peixe. A primeira para evitar o barulho externo e assim manter o espírito reflexivo e a paz interior, e a segunda é a abstenção de carne vermelha numa clara alusão ao corpo e sangue do Cordeiro como é chamado Jesus em diversos trechos bíblicos.
Mas o que vemos acontecer, é a pujança da reunião familiar em torno da mesa que mais parece a celebração de uma boa safra recorde. As mais variadas formas de preparo e cozimento dos peixes, com acompanhamentos muitos vezes regados de epô, o saboroso e aromático azeite de dendê outrora trazido nas caravelas com os homens e mulheres escravizados de África.

Tínhamos também o legado de manifestar o respeito aos mais velhos da família, nas casas onde existia o hábito de se tomar a benção, por exemplo. Nesse dia em especial, o ato se dava de joelhos beijando e tendo a mão beijada, esse gesto, hoje, praticamente extinto de nosso meio, construiu relações baseadas no amor entre pais e filhos, e no respeito às tradições.

A conversa solta, a música, a comida afro/baiana, o vinho e a troca de pratos entre vizinhos faz da Semana Santa momento de grande apelo social e oportunidade de manifestar amor e alegria mesmo diante do sentido real da festa que se inicia fúnebre para só ao terceiro dia explodir em alegria vital. É Páscoa!

Devido às restrições de convívio social, efeito da pandemia do novo coronavírus, responsável pela covid-19, as vivências tradicionais da sexta-feira Santa até o domingo de Páscoa precisam acontecer (ou não) com total segurança e isso requer distanciamento social e uso de máscaras.
Oxalá! Pudéssemos nos abraçar hoje, mas veremos chegar o dia em que poderemos “sair de casa e entrar na rua” num lar doce lar às avessas, mas até lá nossas manifestações precisam acontecer no âmbito da lembrança. Viva a memória!

** Retirado do texto “Origem da semana Santa” (Brasil Escola. Por Jussara de Barros, graduada em Pedagogia)

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