[Coluna NES] Ser para ter

Por Betho Wilson

Existe um ditado que escutei sempre quando criança da boca de minha mãe que era assim: “Quem tudo quer nada tem”.

Esse dizer popular sempre me intrigou naquela época e ainda hoje me chama muito atenção me levando sempre à reflexão quando do nada alguém solta essa pérola.

Particularmente eu sempre quis ter tudo, parece que não existe nada mais satisfatório do que possuir coisas que nos encham de possibilidades. Até li em algum lugar e momento da minha vida um livreto com a história da menina espanhola que foi canonizado pela Igreja, o nome dela era Santa Teresinha do Menino Jesus, e nesse livro ela afirma a um anjo que lhe aparecia não sei se em sonho ou pessoalmente que da parte de Deus ela queria tudo.

A ideia de ter, possuir algo físico (bens) ou abstrato (honra), e até emocional (equilíbrio) me parece muito justa para quem se propõem a buscar conquistar para si aquilo que lhe parecesse ser necessário. Então, onde estaria o problema?

Na sociedade em que vivemos existe uma demanda de muitos desejos e poucas oportunidades o que faz com que nós excedamos muitas vezes o valor das coisas, dos sentimentos, das relações e até das pessoas colocando tudo isso acima de nossos valores nos fazendo perder o critério de escolher entre ter a qualquer custo ou ficar na frustração.

Casos em minha vida não faltam de momentos onde me perdi no afã de me sentir o merecedor de tudo e assim acabar magoando pessoas que encontrei no meu caminho e que só queriam ser comigo.

Gente, que momento é esse que estamos vivendo, não é? A sensação de que chegamos à beira de um colapso existencial é real, e nesse processo que agravou todas as questões sociais que são presentes desde sempre no nosso bairro acabou nos transformados em gladiadores do ter. Um desequilíbrio na demanda e procura que está chegando nossos olhos para o que realmente importa e é essencial para a vida fluir equilibrada que é o ser.

Por um lado é lindo de ver tanta gente se reinventando numa adaptação quase que evolutiva, darwiniana, na busca do sustento de suas vidas e famílias, mas, por outro lado, vemos também o agravamento de casos de pessoas que esquecem o pudor e por administrar os sentimentos e desejos de uma forma diferente das outras pessoas acabam fazendo de tudo para poder ter, isso é um perigo.

A mensagem que me propus a deixar hoje aqui tem a ver com o momento tumultuado que estamos vivendo, muito conflito e pouca arte para acalentar alma e coração. Se você sente assim como eu que é preciso parar e retomar a leitura daquele livro que ficou abandonado, o ponto do crochê engavetado num criado mudo qualquer, desempoeirar um disco ou CD antigo, voltar a dançar até ensopar a roupa, seja lá o que foi abandonado por você devido à busca incessante do ter, pare e volte a esse lugar, pois é nele que você encontrará refúgio para desafogar e respirar o verdadeiro ar que te faz ter o mais essencial dos prazeres que é estar vivo.

Assim como comecei com uma frase de minha mãe biológica, Dona Benedita, finalizou com outra frase, agora da minha mãe espiritual Ya Edenis Amorim: “Viver todo mundo vive, mas poucos sabem viver”

Respire fundo, pegue impulso, e vá com tudo ter o amor dos seus iguais, pois o tempo é mais forte do que a morte.

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Redação NES
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