[Crise ] Moradores do Nordeste de Amaralina relatam busca por vaga no mercado de trabalho

Falta de dinheiro para imprimir currículo, ausência de recursos para se locomover, escassez de apoio de amigos e familiares, problemas emocionais e falta de vagas. Esses são alguns dos principais desafios relatados pelos moradores da comunidade em face à atual crise econômica que se abateu sobre o país.

De acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o desemprego no Brasil mantém recorde de 14,7% e atinge 14,8 milhões.  Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a situação se torna ainda mais cruel para  grupos socialmente e historicamente mais vulneráveis, tais como: jovens, mulheres e negros,  aponta pesquisa do  Ipea. Como diz o ditado: “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. Nos bairros populares, em especial no Complexo Nordeste de Amaralina, as consequências da crise são devastadoras.

 O morador da Santa Cruz, Jorge Júnior, de 30 anos, relata como é sua rotina pelo SIMM e SINEBAHIA, em busca de uma recolocação no mercado de travalho:

” É desgastante e humilhante. Nunca tem vaga.  Não temos nenhum tipo de apoio. Quem não trabalha, como vai imprimir currículo? Como vai pagar o deslocamento até o posto de seleção?  Fazer entrevistas e mais entrevistas, como? Isso propícia abalo psicológico”, desabafa o rapaz, que há 4 anos não consegue um emprego formal.

Helen Rocha, de 21 anos, fala dos percalços enfrentados, por não ter experiência comprovada em carteira: “É uma tremenda labuta. Se não dão oportunidade, como vamos ter experiência? O mercado se encontra cada dia mais exigente. Eu não tenho peixe, tubarão, baleia, nada, ninguém que venha ajudar”, fala a garota que reside no Areal e busca seu primeiro emprego. 

Claudia Santos tem 42 anos, trabalhou há mais de dez anos como ajudante do lar, possui três filhos e passou a contar com a solidariedade de amigos e familiares, além do auxílio emergencial de R$150,00.

“São dias difíceis. Sou a chefe da família. Acordar, e olhar para meus filhos com a geladeira vazia não é fácil. Meus amigos que me ajudam, pessoas da igreja, sobretudo, meus familiares. Sem eles estaria perdida. Gasto com aluguel, contas de água, luz, alimentação… Muitos acham que somos encostados por conta do auxilio, mas só Deus sabe o quanto ajuda quem não tem nada. Mas, estou batalhando e vou vencer. Uma porta vai se abrir”, diz emocionada a moradora da Ceasa do Rio Vermelho, que perdeu seu emprego no início da pandemia.

Cláudio Henrique, de 32 anos, contou ao NES que tem aproveitado o momento para refletir e ver os “verdadeiros valores”:

“Fiquei no fim do poço. Chegada da pandemia, insegurança, anseio, fora isso, desempregado. Sem dinheiro pra absolutamente nada.  Momento de separar o joio do trigo. Quando eu estava com o copo cheio, tinha vários ao meu redor, fiquei desempregado e até minha namorada, foi a primeira a me dar o pé na bunda. Porém, a lição que levo disso tudo, são que os verdadeiros permanecem e uma porta vai ser abrir, caso não, entro pelo buraco da fechadura, mas minha hora vai chegar. Tenho fé”, disse o morador da Santa Cruz que passou a sofrer com problemas emocionais. 

O NES conversou com a graduanda em psicologia  Mylena Rodrigues (@falamylla) que fez alertas e esclarecimentos sobre os  cuidados que se deve tomar  com a  saúde mental nesta fase:

“A pandemia do novo coronavírus  pode ter um efeito sorrateiro e quase invisível aos olhos da população, mas que cobra um preço alto. Cansaço, ansiedade, insônia e choro fácil são alguns dos sintomas que podem ser observados na população neste momento pandêmico. Quando isto é relacionado ao mundo do trabalho, pode parecer mais forte. Vê-se quê, as consequências adversas do desemprego podem acarretar a desestruturação de laços sociais e afetivos, a restrição de direitos, a insegurança socioeconômica, a redução da autoestima, o sentimento de solidão e fracasso, o desenvolvimento de distúrbios mentais, bem como o aumento do consumo ou dependência de drogas”, explica.

“A situação do desemprego, olhando por um outro âmbito, pode também proporcionar uma outra possibilidade: fazer os sujeitos olharem para si mesmos, sendo que, muitas vezes, esse movimento é feito pela primeira vez nessa situação de perda de emprego. Dessa condição pode emanar uma inusitada possibilidade de liberdade e autonomia frente ao futuro, ampliando assim, os limites antes impostos pelo “ser-trabalhador”.”, acrescenta a especialista”.

A psicóloga Alice Silvério, ex-moradora de Amaralina, e que atualmente trabalha Consultora de Recursos Humanos, deu algumas dicas para aqueles que tentam uma recolocação no escasso mercado de trabalho.

Confira: 

-Aproveitar a maior disponibilidade de tempo e novas oportunidades de qualificação e capacitação gratuitas ou a baixo custo que surgiram em sites especializados e acadêmicos;

-É importante se manter em movimento e em constante atualização;

-Importante também buscar o autoconhecimento e a aceitação da mudança, com flexibilidade e criatividade, reestruturar os caminhos e estratégias e aceitar oportunidades de trabalho e produção, ainda que informais;

-Essencial compreender a natureza coletiva da crise financeira, sanitária e da oferta de emprego;

– Saber que a dificuldade é de cunho coletivo, ajuda a combater a ansiedade e ter maior clareza na escolha das alternativas para superação;

– Ser resiliente é essencial.

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Amante da Literatura, apaixonado pelas Letras. Discente de Letras Vernáculas e Língua Inglesa, poeta, escritor , blogueiro, professor e Repórter do site NES.