[Selma de Xangô] “Eu tenho clientes evangélicas! E não é nem um, nem dois e nem três”.

Na nona reportagem da série sobre o povo de santo do Nordeste de Amaralina vamos conhecer a história de Mãe Selma de Xangô.

Foto Reprodução NORDESTeuSOU

A vida de mãe Selma de Xangô é definitivamente “uma novela” como a mesma costuma dizer. Se Xangô, seu orixá de cabeça, é pouco chegado à vida calma, com Selma Cristina não é diferente. Viagens e aventuras são marcas presentes em sua trajetória.

Selma Cristina dos Santos Fragoso nasceu em Salvador. Foi criada na pequena comunidade do Alto da Sereia, no Rio Vermelho, entre as praias da Sereia e da Paciência. Seu pai, Otaviano, trabalhava como estivador, o que o obrigava a passar muito tempo afastado da família. Às vezes estava em casa, aparecia um navio para descarregar e ele partia.  Sua mãe, dona Regina, no começo da vida de casada era “do lar” até começar a trabalhar numa escola pública, onde aposentou-se. Selma teve uma infância feliz, apesar das dificuldades financeiras, o que lhe obrigou, ainda muito jovem, a lutar pelo que queria. “Minha mãe sempre fez tudo para ocupar meu tempo. Desde cedo eu já trabalhava como manicure, dava banca em casa, carregava compras. Tudo em prol de ganhar alguma coisa. Eu vim de família pobre, passei fome. Na minha época se você queria uma camisa, você tinha que procurar um meio ganhar aquela camisa… “, recorda orgulhosa “Selminha” ou “Minha”, como é carinhosamente chamada pela família.

Selma fez o primário na escola Ana Nery. De lá foi para o Rafael Serravale e depois para o Colégio Edgard Santos. Prestou vestibular para Enfermagem na Universidade de São Paulo (USP), onde formou-se. Regressa da capital paulista com diploma na mão e já com uma filha no colo. Então a futura ialorixá partiu em busca de um velho sonho: ser professora. Resolveu fazer o curso de Magistério no Colégio Estadual Lomanto Junior, local onde sua mãe trabalhava. Concluído o Magistério partiu para uma nova formação: Pedagogia. Selminha chegou a abrir uma escola: A “Pingo de Ouro”, no Alto de Ondina. Antes disso a unidade escolar funcionava no barracão do seu pai-de- santo, no Alto da Alegria. “Depois eu mudei de endereço e passou a ser Educandário Tia Danda”. Nessa época, a jovem revezava seu tempo como educadora e cabeleireira! “Eu também tinha um salão de beleza no Pau Miúdo. Tomei um curso de Cabelereiro no SENAC, na época do curso de Magistério”, explica a multifacetada profissional.

O INICIO – “Minha” foi criada na igreja católica. Foi batizada e fez primeira comunhão. Participou de grupos de jovens e até chegou a ser catequista. Contudo, antes mesmo de iniciada no candomblé, gostava, na companhia de uma tia, de assistir as festas nos terreiros dos morros do Alto da Sereia e da Alegria. As casas de Dona Carmelita e de Jorge de Oxum era um dos ilês onde costumava bater ponto. Contudo, essa “ligação” com o povo de santo não surgiu à toa. Sua avó paterna era do candomblé e seu pai era frequentador, mas ia somente quando tinha necessidade. “Ele frequentava a casa de Olga de Alaketu. Ele presenciou algo lá dentro que fez com que ele se afastasse, mas não sei o que foi. Ele estava com tudo pronto para fazer o santo.  Todos meus parentes que entraram foram pela dor, por doença. Perdi uma tia por isso, o filho dela pela mesma forma. Minha mãe achava a religião muito bonita, mas não para a filha dela”. Não demoraria muito e Dona Regina teria que aceitar e faria concessões muito além do que um dia pôde imaginar.

Aos 18 anos, Selma desenvolveu uma semi-paralisia nas pernas. As dores a incomodavam incessantemente. “Meu pai me levava para médico, fez isso, fez aquilo e nada. Foi então, que dona Maria, uma senhora que morava no fundo da casa gente, e era do candomblé, falou para mainha: “Regina, a história está se repetindo. Vocês não estão vendo não? O caso de Selma não é médico”. Minha mãe respondeu: “Minha filha nessa patifaria eu não quero” ”. Mesmo contrariando a esposa, seu pai resolveu ir a um terreiro fazer uma consulta para ver o que era que dava. Quando chegaram lá na casa de Pai Gidewa de Oxossi, no Alto da Alegria, lhe foi dito que o problema da sua filha não era carnal e sim espiritual. “Meu pai foi então conversar com minha mãe e disse que eu tinha que fazer o santo. Minha mãe disse que era problema dele, que não queria nem saber e que qualquer coisa que acontecesse comigo seria culpa dele. Eu aí fui e fiz logo o santo. Tinha 20 anos”, conta “Minha”.

Da feitura do santo para a entrega do Deká se passaram apenas oito anos, mas ledo engano daqueles que pensam que foi fácil para a então iaô aceitar o destino que lhe fora imposto pelo orixá: tornar-se uma ialorixá. Quando foi para São Paulo, com a desculpa de estudar, Selminha na verdade via na viagem, uma forma de fugir do compromisso que teria que assumir espiritualmente. “Meu deká fiz depois de oito anos de santo. Meu pai não deixava passar as obrigações. Nunca me convenci que seria mãe de santo. O pessoal é que dizia: “Selma, você tem um tombo de mãe-de-santo. Você saber falar bem, sabe se comunicar com as pessoas…”. Eu queria apenas me cuidar, mas não percebi que todo o enredo da minha família veio parar em cima de mim. Ninguém cuidou, aí sobrou para mim”.

Quando voltou de São Paulo, a iyá foi morar na casa de Pai Gidewa de Oxossi, que estava fora de Salvador. Lá, de fato, fez seus primeiros trabalhos como sacerdotisa: “Eu estava à frente da casa. Então sempre aparecia um jogo, um cliente, um ebó, um filho pequeno, pessoas que vinham fazer uma obrigação… Eu não queria ser mãe-de-santo, mas fazia tudo isso porque estava na casa dele”. Quis o destino que um mal-entendido tenha precipitado a saída de Selma da casa de Gidewa. O destino? Nordeste de Amaralina. Entraria em cena o caboclo Tupiaçu.

OBA ONIRÊ– Quando veio morar definitivamente no Nordeste, o que ocorreu em meados dos anos de 1993 e 1994, Selminha já conhecia o bairro. Seu avô já morava no terreno da rua Irmã Dulce e vendeu parte do terreno para sua mãe. “Meu pai tinha recebido um dinheiro grande aí comprou esse terreno. No entanto eu só vivia aqui no Nordeste. Gostava do samba, tinha meus primos… Tinha o Unidos do Capim, o samba junino. Época de São João eu sempre estava por aqui”, lembra. Logo que chegou Dona Regina dividiu o imóvel em três partes: Ela em cima, seu filho no meio e Selma ficaria com a casa de baixo. Todavia, não haviam combinado nada disso com o Caboclo Tupiaçu.

O caboclo Tupiaçu apareceu na vida da professora, quando ela ainda era criança, mas só começou a dar sessão muito tempo depois. “Já tinha uns oito, nove anos de santo. Fui feita na época que iaô era Iaô e Ebomi era Ebomi. Não é hoje que você faz santo e que daqui a seis meses você já virou mãe de santo, o caboclo já pega e você já faz trabalho”, ressalta a iyá. Todavia quando chegou no Nordeste, o Caboclo mandou o recado: Era a hora dele pôr o pé na rua. O que tinha começado tinha que ter segmento. Selma mesmo conta: “Onde hoje é a casa de Exu, aqui em cima, era a horta de minha mãe. Tupiaçu conversou com minha mãe e disse a ela que precisava daquele pedacinho de terra. Ela aceitou. Construímos o quarto, assentamos Exu e Tupiaçu começou a dar sessão lá na sala da minha casa.  Não ia ter barracão, só a casa de Exu. Eu não decidi botar Terreiro. Decidiram por mim. As coisas foram acontecendo gradativamente”. Adiante, Tupiaçu chamou seu irmão e propôs construir o local onde hoje é o barracão. Em troca lhe pagaria um aluguel para usar o espaço. “Eu trabalho e você constrói”, disse o Caboclo. “Os clientes vinham e ele aí pedia o pagamento em materiais de construção. Logo batemos a lage”, lembra Selma. Não demorou e Xangô precisou comer. O Caboclo fez uma nova oferta e mais uma vez seu irmão cedeu, como detalha a mãe-de-santo: “Apareceu então uma viagem para Curitiba para trabalhar com candomblé. Depositei todo o dinheiro na conta de minha mãe para que fosse construído o quarto de Xangô”. Não demorou e o Caboclo mais uma vez entrou em ação. Dessa vez disse ao proprietário do imóvel que precisava acabar de fazer a casa pois necessitava de um lugar para fazer uma festa. “Meu irmão deixou que ele fizesse a festa. E foi o erro dele. Foi assim que foi aberto o candomblé aqui. Fui no culto afro e fiz o registro: Ilê Axé Obá Onirê”.

NORDESTE DE AMARALINA –  A sacerdotisa relembra que antes mesmo de morar no Nordeste, já tinha tido contato com a comunidade de santo da região:  “Já tinha vindo no candomblé de Mário, aqui no Capim. Conhecia o finado Jacó e a finada Lindaura. Eles frequentavam a casa do meu Pai de Santo. Quando eu era menor, vim com minha mãe uma vez, na casa de dona Arlinda. Fomos fazer um trabalho para uma prima de meu pai que estava doente. Hoje, frequento a casa de Rosinha, de Careca, conheci a casa de dona Edênis, na saída do santo de Papai. Careca, dona Chica, Rosinha, todos iam na casa de meu pai no Alto da Alegria. Então quando vim morar aqui já conhecia a comunidade de santo daqui”.

ÁFRICA – Uma passagem importante na vida da sacerdotisa Selma de Xangô foi a experiência vivenciada na África. Logo após a feitura do santo, ainda sem amadurecimento dentro da religião, Selminha conta que não sabia se seguia o que lhe falava seu babalorixá ou atendia o que lhe era passado pelas vozes que ouvia. Seu pai trabalhava no porto e conhecia muitos africanos, então que resolveu pedir orientação aos mesmos sobre os problemas da filha: Quase eu enlouquecia. Comecei a surtar. Os africanos explicaram que a presença do orixá em minha vida era muito grande e resolveram me levar para a África para que eu recebesse os cuidados devidos. “A experiência foi maravilhosa. Lá não é igual aqui. Lá a coisa é mais natural. Isso influenciou totalmente na minha formação como mãe-de-santo.  Não deixo que as pessoas me exaltem tanto. Lá você é exaltado pela pessoa que você é, mas todos os méritos são dados ao orixá. Não ao pai-de-santo, que é um ser comum dentro da religiosidade, mas que precisa ter o respeito e o patamar dele. Passei a ter um conhecimento de orixá totalmente diferente de que o povo hoje tem”.

PRECONCEITO – Episódios de preconceito também são relatados pela Ialorixá. Já sofri preconceito. Quando eu fiz santo ainda era jovem, na idade de namorar. Se soubessem que era de candomblé não arranjava namorado. Já fui discriminada diversas vezes dentro do avião.  Trouxe muita roupa lá da África. Roupas que eu vestia lá no dia a dia. E que aqui eram roupas de festa no candomblé. Quando eu viajava aqui, automaticamente, por facilidade, eu colocava essas roupas. Já fui parada dentro de avião por isso. Teve uma amiga, que hoje é somente uma conhecida, que quando soube que eu estava no candomblé ela se distanciou. Uma amiga que dividia um prato de comida. E olha que ela vinha de uma família espirita…”. Selma destaca que nunca foi discriminada dentro da comunidade, muito pelo contrário. “Quando tem festa aqui, eu sempre aviso. Mas também faço por onde. As festas aqui vão no máximo até 01h. Tem que ter bom senso”. O caso de alguns clientes, teoricamente fora dos padrões daqueles que recorreriam a um terreiro de candomblé, realça a popularidade da sacerdotisa:  “Eu tenho clientes evangélicas! E não é nem um, nem dois e nem três. Eles vêm para botar consulta, para fazer trabalho…. Eles costumam vir meia-noite, uma hora da manhã. Uma vez apareceu uma aqui no final da tarde. Veio de bíblia e tudo direitinho. Na saída, fui levar ela até o portão. Quando cheguei no portão, passou uma outra evangélica que gritou: “Irmã…. Você está fazendo o que aí? ”. Ela aí respondeu: “Estou aqui evangelizando dona Celma”. Nesse caso tive que ser profissional. Não poderia expor a minha cliente. O candomblé nada mais é que o segredo. Fiquei minha. A partir desse dia, ela passou a ligar e perguntar como faria para vir aqui, qual o melhor horário. Aí eu dizia que viesse num horário não convencional em que ela não fosse vista. Tenho uma “crente” aqui que é borizada”.

Atualmente, Selma Cristina alterna entre os papéis de mãe (de suas três filhas), mãe-de-santo e professora. Leciona Português, Redação e Literatura no Colégio Duque de Caxias e na Escola Parque. Sou professora de Português, Literatura e Redação. “Atualmente, também bordo richilieu. Inclusive fui para o interior ministrar um curso de capacitação de bordado”, diz orgulhosa. E para que tudo isso? A resposta mostra o caráter moldado da iyá, de temperamento explosivo, gênio forte e senso de justiça, como toda boa filha de Xangô: “Sempre pedi ao orixá o seguinte: Xangô, meu pai, não deixe nunca que eu precise ter cliente para me fazer uma consulta ou um trabalho, para eu dar de comer as minhas filhas. Nunca deixe eu precisar do dinheiro do candomblé para pagar uma conta minha. Quero continuar sendo a pessoa que sempre fui no candomblé. Não quero deturpar a imagem da religião. Quero botar uma consulta, cobrar por ela e dizer a verdade. Nunca aumentar. Então, para que isso aconteça eu tenho que ter meu trabalho para pagar minhas contas”. Kao Kabiesilê!

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU