[Talento NES ] Motorista carreteiro, oriundo do Nordeste de Amaralina, mostra ao mundo sua arte através do papel

“Costumam dizer por aí que o homem é produto do meio. Mentira! O homem só é produto do meio a partir do momento em que ele se permite ser produto do meio”. Essas são as palavras de Samuel Cruz, 37 anos. Motorista carreteiro de profissão, Samuel nasceu e cresceu no bairro da Santa Cruz, no Complexo Nordeste de Amaralina. Foi através da arte, feita em pedaços de papel jornal, que Samuel desafiou o destino e contrariou a lógica negativa reservada aos jovens oriundos da periferia da cidade. Samuel teve seu trabalho exposto, desde a última quarta-feira (25), na galeria do famoso artista plástico Sérgio Amorim, no Shopping Barra. A exposição segue até o próximo dia 25 de setembro.

“Minha história é uma história e sofrimento…Fui criado por minha avó. Minha mãe era envolvida com droga. Não posso dizer que tive pai, pois quando eu o conheci já estava 15 anos e não tivemos vínculo. Trabalhei muito tempo com carinho de mão aqui na feira do Nordeste. Dormia aqui na barraca de dona Raimunda, aqui mesmo no final de linha. Quando dava 4h, esse camarada que vende caranguejo aqui até hoje, me pagava um trocado para que carregasse a mercadoria dele. Fiquei um tempão fazendo isso. Trabalhava aqui para ajudar minha vó, que trabalhava na escola Arthur de Sales, aqui mesmo na Santa Cruz. Morávamos eu, ela e meus tios, na Rua 9 de janeiro”, conta.

Aos 19 anos, a vida impôs um novo baque ao garoto. A morte do avô obrigou Samuel a procurar novos ares. Jovem acabou se mudando, juntamente com o irmão, para Lauro de Freitas, onde permaneceu por cinco anos.

“Fomos morar na Itinga. Posteriormente, conheci uma pessoa que mora aqui no Alto de Ondina e me perguntou se eu gostaria de ir morar com ela. Já temos doze anos juntos. Trabalhei como vigilante, como cobrador de ônibus fiz curso técnico em Radiologia, tirei habilitação na categoria D, depois na categoria E… Foi então que tive a oportunidade de trabalhar com uma caretinha velha. Hoje, sou motorista carreteiro. Agora, estou na faculdade. Estou cursando terceiro semestre de Artes Visuais”, relata.

A arte – De um quase que fatal episódio, uma nova perspectiva de vida. Foi meio que por conta de um acidente, em setembro de 2014, que a arte entrou na vida de Samuel.

“Eu tombei com carreta ali na rotatória do CIA. Estava com 26 toneladas de cloro em pó. Fiquei duas horas preso nas ferragens. Chorava como criança… Eu gritava: estou preso, me ajude, eu vou morrer. Foi o dia em que realmente aprendi que cada momento que você puder aproveitar sua vida, aproveite. Para o Corpo de Bombeiros me resgatar foi preciso cortar banco, volante…Teve, inclusive, um bombeiro que veio me socorrer e se acidentou também. A porta caiu e bateu na cabeça dele. Ele desmaiou e foi para a UTI comigo. Graças a Deus não morreu”, conta emocionado.

“A arte entrou a partir do momento em que eu fiquei encostado e ansioso dentro de casa acabei procurando algumas coisas pela internet. Encontrei um trabalho feito com cimento, fiz alguns vasos e acabei até conseguindo quitar umas dívidas minhas com a venda desse material. Depois, dando mais uma pesquisada acabei encontrando alguns trabalhos feitos com papel. Até então eu não sabia que aquilo estava predestinado para mim…Quando é para acontecer, vai acontecer… Fui fazendo algumas coisinhas com papel e me aperfeiçoando…”, completa.

“Jogando meu corpo no mundo / Andando por todos os cantos…”. Como na letra da bela canção, Mistério dos Planetas, dos Novos Baianos, o motorista carreteiro e artista autodidata continuou se aventurando na arte em papel. Pesquisando e buscando se aperfeiçoar.

“E pela lei natural dos encontros…”, aconselhado pela amiga Luzimar, procurou o Instituto de Artesanato Visconde de Mauá, projeto já extinto, e que tinha como objetivo o fomento ao artesanato. No Mauá foi orientado a ir até o Serviço Social da Indústria (SESI), sob a recomendação de procurar uma outra pessoa que trabalhava há trinta anos com papel e que poderia lhe ajudar.

O resto ele mesmo conta:

“Chegando lá me disseram que não podia, que a turma estava cheia e tal. Mas, quando essa pessoa me viu ela se arrepiou. Estava tudo desenhado…Ela então pediu que me dessem a oportunidade. Eu disse então que assistia aula atém em pé. No outro dia eu estava lá, e é claro, que tinha arranjado uma cadeira para mim (risos)”

Sete anos passados, Samuel ainda alterna sua produção artística com a rotina como carreteiro, de onde tira o sustento. No entanto, ambiciona alcançar através da sua arte vôos ainda mais altos na sua já exitosa trajetória de vida:

“Conquista, financeiramente falando, ainda nada. Hoje, a minha forma de sobrevivência é o trabalho formal. Sou motorista carreteiro. As oportunidades estão surgindo, mas ainda não se materializou. A arte tem um sentido supremo e tem me aberto portas para um novo mundo, um novo caminho… Meu objetivo é viver da arte. Ir para outros países, desenvolver novos trabalhos…”.

Veja outros trechos da entrevista:

Inspiração

“Minha maior fonte de inspiração é o cotidiano. Me inspiro na retratação do cotidiano. Um casalzinho de sertanejos, um homem com uma enxada na mão, uma mulher com o um feche de lenha na cabeça… Era tudo o que eu via. Inicialmente, segui essa linha. Depois de uma mostra em que participei no Pelourinho, eu estou seguindo a temática sacra. O tema dessa exposição foi Santo Antônio. Essa temática, por tratar da religiosidade, acaba atraindo uma atenção maior das pessoas. Tenho me inspirado nas imagens de santos, procurando saber a sua história, o que eles faziam e eram… Por exemplo: Cosme e Damião eram dois irmãos, médicos, e que atendiam em devoção à fé. Aqui na Bahia, essa questão da religião e matriz africana, é muito forte. Algo muito dominante.

Lições do passado

“O maior legado do Nordeste de Amaralina em minha formação foi ter me ensinado que as dificuldades você pode superar. Dizem que o homem é produto do meio. Mentira. O homem não é produto do meio. Eu convivi com pessoas que se envolviam com drogas e eu nunca me envolvi. Pessoas que bebiam e eu nunca bebi. O homem é produto do meio a partir do momento que ele se permite ser produto do meio. O que levo aqui do meu bairro é superação. Por conta de minha mãe ser usuária de drogas, os pais não queriam que os filhos brincassem comigo. Hoje muito dos filhos desses pais entraram no tráfico e estão debaixo da terra. O que eu trago do meu passado é superação. Serviu como uma mola propulsora. Hoje, olho para o Nordeste e vejo tantos jovens que se eu tivesse a oportunidade de lhes falar tudo o que eu passei, e que consegui superar, eu faria”.

Exposição

“Estarão expostas oito obras minhas com a temática sacra: Irmã Dulce, Cosme e Damião, São Franciso de Assis, Sagrado Coração de Jesus, A Crucificação de Jesus Cristo e o Nascimento de Jesus Cristo. A expectativa é de sucesso. Estou extasiado. Estou acreditando que agora meu trabalho terá uma visibilidade maior”.

Fui convidado por Sérgio Amorim… Foi algo muito emocionante. Uma senhora viu meu trabalho lá na mostra em que participei, no ME Ateliê, e falou com Sérgio. Ele então disse que já tinha visto meu trabalho. Entraram então em contato comigo. É um cara que você olha e não diz que é quem é. Fui então até a casa dele para conversamos. Chegando lá… Uma pessoa muito simples…Agradeci a ele, e ele me respondeu: Não precisa me agradecer porque você é tão artista quanto eu. Um cara que tem suas obras no Palacete das Artes, junto com Mário Cravo!”.

Obs: O trabalho de Samuel pode ser conferido de perto na Galeria Sérgio Amorim, no Shopping Barra, até o próximo dia 25 de setembro.

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Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU