“Ao mestre com carinho”: Docentes do Nordeste de Amaralina falam sobre Dia do Professor

“O educador se eterniza em cada ser que educa.” A frase do educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire vai ao encontro justamente da essência daquela que é considerada umas das mais nobre e importantes profissões: o professor. Ambientes insalubres e exaustivas jornadas de trabalho, frutos da falta de investimentos na educação, são alguns dos problemas que somados aos baixos salários conferem à categoria o status de herói. Desvalorizados, esses profissionais resistem bravamente às injustiças e dificuldades a que são diariamente submetidos. No dia 15 de outubro, Dia do Professor, o Nordesteusou ouviu alguns desses mestres para saber um pouco mais sobre sua rotina, as suas dificuldades e, apesar dos pesares, o prazer em lecionar.

Alexsandro de Jesus Silva , 42 anos,  nascido e criado na Baixa da Olaria, no Nordeste de Amaralina é um daqueles que teve alicerçada, através da sua trajetória de vida pessoal, as virtudes  do profissional que se tornou.  Ainda criança, aos nove anos de idade, perdeu seu pai. Diante dos problemas financeiros, teve que parar os estudos para trabalhar. Posteriormente, mais precisamente nove anos depois, através do incentivo de um amigo de infância que Alexsandro voltou ao encontro dos livros.

“Foi  o professor Bruno Oliveira Silva  o meu grande incentivador. Foi ele quem me orientou que voltasse a estudar… Fiz o EJA (Educação de Jovens e Adultos) à noite e depois o ensino médio no turno matutino. Hoje sou graduado em Matemática e Técnico em Operações de Processos Químicos Industriais. Atualmente, sou estudante de Química na Universidade Federal da Bahia (UFBA)”, conta Alexsandro.

Hoje professor do Colégio estadual professor Edilson Souto Freire, em Dias D’Ávila, e da Escola Municipal Valdete Seixas de Oliveira, em Mata de São João, o educador afirma que “o Dia do Professor é antes de tudo um dia de reconhecimento”.

“Precisamos ser melhor valorizados e ter um papel de destaque dentro da sociedade. Algumas profissões simplesmente escolhem a gente. Nunca planejei ser professor, quando vi já estava dando aula. Minha maior alegria como professor é ensinar do mesmo jeito que eu queria aprender.   Tento ensinar enxergando a realidade do aluno. Nascido e criado no Nordeste de Amaralina, na periferia, sei das dificuldades que os moradores aqui da comunidade carregam… Procuro entender esse aluno e me dedicar ao máximo à ele. Ser, além do professor, o amigo, o exemplo, a energia a mais que as vezes nos falta, sobretudo quando nossas auto-estima está um pouco baixa. Quero mostrar a eles que somos capazes de chegarmos aonde quisermos e que isso depende apenas do nosso esforço”, explica.

“Sinto muito orgulho quando encontro um aluno já trabalhando, já formado e que vem me agradecer. Me sinto privilegiado, mesmo indo às vezes para sala de aula sem um piloto, sem xerox, mesmo sala não tendo um ventilador… Enfim, com todas essas mazelas me sinto honrado em ter abraçado essa profissão”, completa.

O historiador e professor, Alberto Junior, 31 anos, também morador do Complexo Nordeste de Amaralina, explica ter  escolhido a educação “por achar que o mundo só poder ser melhor quando, de fato, a mesma for acessível ao povo”.

” É como dizia Paulo Freire: A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas e as pessoas transformam o mundo. Qeum opta em ser professor sabe que ali ele terá muitos desafios. A gente se mantém firme justamente por acreditar naquilo que estamos fazendo. Cresci vendo as minhas tias lecionando. Optei pela educação por essas referências e por ter o desejo de transformar o mundo pela educação. Acredito muito que o que nos mantém em pé ensinando é ver o aluno aprendendo. A alegria do professor é ver o aluno crescendo e se desenvolvendo”, explica o docente que leciona nas nas escola Pingo de Gente,  Deus Conosco e na Asprem.

Alberto faz ainda algumas considerações sobre a situação de desapreço à categoria:

“Primeiro, a desvalorização da educação que é um projeto político para se manter a usurpação dos direitos e a corrupção dentro do país. Segundo, alguns gestores que não respeitam e não valorizam o professor pagando muitas das vezes uma hora/aula de R$7,70, sendo que o sindicato estabelece o pagamento do mínimo. Terceiro, por conta dos pais que também não nos respeitam delegando toda responsabilidade ao educador.  Tem também os alunos que também não respeitam e fazem parte desse processo de desvalorização do professor”

Exemplo – Esse é o caso da professora Célia Lis, 80 anos de idade, que tem sua história de vida confundida com a própria profissão. Com mais de 53 anos dedicados à educação, a educadora, que além de fundadora da Escola Professor Bernardino Moreira (EPBM) tem passagens por diversas  unidades educacionais do Complexo Nordeste de Amaralina, tais como: as escolas municipais Artur de Sales e Anita Barbuda, pode ser considerada um patrimônio da educação dentro do bairro.

“Uma mestra aguerrida. Acredita  que a educação é uma potência que pode ultrapassar as barreiras. Acredita que a educação pode potencializar, resgatar e mostrar um olhar da vida de um jeito diferente: a acreditar em um futuro melhor e com mais justiça, igualdade e democracia, promovendo no ser a esperança futura . E é assim nos seus 53 anos , na EPBM seguindo essa linda missão que junto com sua equipe eletiva,  enxerga que a capacidade de desenvolver a autonomia docente e promover conteúdos de acordo com a necessidade dos seus alunos. Sempre com o objetivo de transformar”, explica a também professor, filha de Célia e atual diretora da EPBM, Analis Moreira.

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Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU