[Opinião] “Dois pesos e duas medidas” em cobertura de prisão de empresário no Horto Florestal

Foto: Reprodução

Por Tiago Queiróz*

“Em operação realizada em Salvador, na manhã desta quarta-feira (27), um empresário do setor de embalagens plásticas foi preso sob acusação de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Assim foi noticiada a prisão de um suposto criminoso, morador do no Horto Florestal, bairro nobre de Salvador. Chama à atenção o fato da omissão do nome do acusado. As coincidências não param por aí: nada de fotos, nem repórteres de programas sensacionalistas com calorosos pedidos de justiça. Cobertura discreta. Tudo feito na moita a fim de não expor a identidade e ferir a honra de um representante da chamada high society soteropolitana. Afinal, é preciso não ferir os ditames da ética jornalística!

“Tá tudo muito bom (bom)/Tá tudo muito bem (bem)/Mas realmente…”, diz um  grande sucesso do rock nacional dos anos 80. Pois bem.  A situação acima relatada é uma grande oportunidade para expor a parcialidade, preconceito e a desonesta forma com que a grande mídia trata a periferia da cidade, em especial o Nordeste de Amaralina. Vizinho ao Horto Florestal, o Nordeste de Amaralina, bairro formado por habitantes em sua maioria negros, tem sua população diariamente massacrada nas coberturas, sobretudo, das editorias policiais. Certa vez um repórter chegou ao ponto de se referir à comunidade como “faixa de gaza”, em alusão à zona de conflito localizado na região do Oriente Médio.  O mesmo “jornalista”, se é que podemos lhe dar essa alcunha, se portou como uma tchutchuka em relação ao empresário detido durante a Operação Invólucro, em nada lembrando o tigrão presente nas coberturas diárias nos bairros periféricos da capital. Se o “ladrão” negro e pobre tem sempre seu nome e e rosto expostos  sob eloqüentes manchetes, o ladrão rico é legado ao anonimato. “Meu filho é doente”, disse certa vez dona Marluce Quadros,  mãe do ex-ministro Geddel Vieira LIma, fiel representante da burguesia soteroplitana e preso pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

A abordagem, pautada pela celebre frase do “dois pesos e duas medidas”, não hesita em pesar a mão sob as costas do “criminoso”, morador da favela. Não bastasse a violência desmedida e opressora do aparato policial cabe à grande mídia o tiro de misericórdia sobre essa população, que já nasceu condenada a ser vítima do esquecimento por parte do poder público.

A covardia é institucionalizada de todas as formas.

*Tiago Queiróz é jornalista e Editor Chefe do NES

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Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU