#PratosDasComunidades – Pelo segundo ano seguido, jornalista e escritor, Franciel Cruz adere à inciativa do NES: “O mínimo que podemos fazer é lutar para amenizar as dores de quem tem fome”.

Sensibilizado pela pandemia e seu efeito devastador, sobretudo dentro das periferias da cidade, o jornalista e escritor Franciel resolveu, mais uma vez, inovar. Assim como fizera no ano passado, o “agitador social” aproveitou a data em que completa mais uma primavera para ajudar a quem precisa. Se em 2020, reverteu toda renda adquirida pela venda do seu livro, “Ingresia”, no dia do seu aniversário, como doação para a população em vulnerabilidade do Nordeste de Amaralina e moradores de rua do Centro da cidade, esse ano ele foi além. Franciel utilizou as redes sociais, onde goza de grande popularidade, para aderir à campanha Prato das Comunidades. Todo valor arrecadado foi repassado ao Nordesteusou e revestido em cestas básicas. Os itens serão distribuídos, através de uma parceria com o Nordesteusou, entre moradores do Complexo Nordeste de Amaralina. Como ele mesmo explica:

“Eu sempre fazia comemorações para juntar pessoas amigas em meu aniversário. Com a pandemia ficou impossível juntar essa gente. Como eu não queria aglomerar, mas queria estar convivendo com as pessoas que eu gosto surgiu essa ideia de tentar ficar junto de alguma forma. No ano passado eu peguei uma Chikungunya e, isolado em casa, resolvi fazer uma transmissão com o pessoal. Durante a live tivemos a ideia de tentar de algum modo amenizar as dores de quem está precisando. Fiz então a venda de livros e a doação para transformar em cesta básica. Esse ano, um sobrinho meu fez uma poesia chamada “A divisão é divina”, que fala sobre a necessidade de compartilhar. Isso me inspirou a buscar um resto de forças para fazer a campanha de novo. Acabou sendo mais forte que o ano interior. Conseguimos arrecadar o dobro do ano passado”, disse Franciel em entrevista ao NES.

Além da campanha do NES, uma outra inciativa de solidariedade às vítimas da pandemia foi também lembrada pelo escritor. Trata-se do projeto batizado de “Motoqueiro Esterilizado”. Idealizado e executado pelo ativista social, Claúdio Deiró, o projeto contempla moradores de rua de Salvador:

“Todo o dinheiro arrecadado com a venda do Ingresia no período do meu aniversário estarei entregando para o projeto do amigo Deiró, que está diretamente na rua, tirando essas pessoas da invisibilidade e ajudando a curar parte de suas dores. Nessas andanças ele encontra um morador de rua ou um catador de produtos recicláveis, por exemplo, e pergunta se a pessoa quer conversar. Não adianta oferecer um 1kg de feijão a quem não tem nem onde cozinhar. Às vezes ele dá uma grana, dá uma marmita e vai fazendo todo esse procedimento”.

O autor – Jornalista, escritor e agitador social. Esse é Franciel Cruz. Morador do Nordeste de Amaralina, ele é daquelas pessoas que não passam desapercebidas, seja pela vasta cabeleira ou pelo jeitão carismático com que desfila pelo “Norte Nordeste de Amaralina”, como costuma se referir ao bairro onde reside. Nascido no sertão baiano, mais precisamente no município de Irecê, esse “rouco e cansado locutor”, como ele mesmo se auto define, chegou em Salvador aos 15 anos de idade.

“Minha trajetória é nômade e ao mesmo tempo sedentária. Minha alma ainda permanece no sertão, apesar de lambuzada de dendê e dessa brisa aqui do Nordeste de Amaralina”, explica.

“Nesse lugar especifico eu já moro vai fazer 20 anos. Sempre gostei daqui, vou à feira do final de linha dia de domingo, gosto de circular pelo bairro, meu filho também gosta… Gosto muito de viver e morar aqui.  Eu morava na Manoel Dias, mas sempre andava por aqui. Vinha beber aqui nas bodegas…É o lugar onde mais demorei morando e não quero sair. Isso aqui é uma espécie de “Brasil levado às últimas consequências com suas dores e delicias”. Ao mesmo tempo que temos coisas muito difíceis, temos muita alegria, muita arte, muita vida”, continua.

Jornalista de formação e por vocação, Franciel chegou a cursar faculdade na área de Telecomunicação.  “Meu primeiro grau foi todo construído em escola pública. O segundo grau comecei em escola pública, no Colégio Central, mas como quis fazer processamento de dados que na época só tinha em escola particular, tive que dar meus pulos para fazer esse curso. Fiz faculdade de Telecomunicação e somente depois, no início da década de 90, fiz Jornalismo na UFBA”, conta.

Diploma na mão, o jornalista tem no currículo passagens por diversos veículos da Bahia e do Brasil, sempre com seu texto limpo, preciso e felino.  “Trabalhei um tempo no jornal Tribuna da Bahia, no Bahia Hoje e concomitantemente fazia assessoria para fiscais do Estado. Há 24 anos, completa agora dia 9 de maio, estou como editor do Diário Oficial lá no Poder Legislativo Estadual. Nesse meio tempo fico escrevendo para jornais de fora, escrevi na revista Muito do jornal A Tarde dentre outros veículos

Foto: RFI / Elcio Ramalho

Rede social – Mesmo meio que avesso à tecnologia (o moço até hoje se recusa a ingressar no Whats App) Franciel é o que chamamos de “fenômeno” nas redes sociais.  Suas reuniões virtuais carinhosamente batizada de “Live das Canjebrinas” costuma reunir centenas de pessoas. No Facebook são mais de 2 mil seguidores e no Twitter quase 10 mil. As redes, segundo ele, são utilizadas como instrumento de mobilização e protestos.

“Foi tudo muito por um acaso, como as coisas da vida, que não é nada programado e nada linear. No Facebook tenho cinco anos participando de diversas movimentações. É uma continuidade da vida. Você usa os meios de comunicação que estão à sua disposição para fazer as coisas que você acredita. Então, desde que eu entrei para essa rede social sempre tentei fazer movimentações a favor das diretas, contra esse terrível teto de gastos… Chegamos a fazer uma manifestação grande durante a lavagem do Bonfim”.

E foi através de uma campanha iniciada no próprio Facebook que o escritor viabilizou a publicação do seu livro, o “Ingresia”. A obra, que é uma coletânea de contos sobre a Bahia, com histórias do cotidiano, mobilizou pessoas até de outros países. “Nunca tive ideia de fazer livro, nunca tive pretensão no campo literário, está sendo uma surpresa. O livro é uma consequência dessa campanha virtual.  Tem textos sobre política, alguns pretensiosamente culturais e futebol. Selecionei de acordo com os temas, para costurar o livro, para um texto dialogar com outro. Não dividi por capítulos, mas o fluxo divide bem”, relata.

Um caso ocorrido na semana passada, onde tio e sobrinho foram assassinado após furtar carne no supermercado Atakarejo de Amaralina, é visto  por Franciel como de “grande importância simbólica”:

“Esse ano foi muito forte esse processo solidário. Logo após o meu aniversario tivemos essa tragédia, que se repete aqui no Brasil, que é de se eliminar as pessoas que precisam comer. Tivemos um caso aqui em nosso bairro, infelizmente, onde o tio e o sobrinho foram assassinados por conta de alimento. Isso não pode se repetir.  O fato acabou ganhando uma importância simbólica muito grande porque no mesmo momento eu que estava arrecadando dinheiro para distribuir cesta básica tinha gente morrendo porque não podia comer. O mínimo que podemos fazer é lutar para amenizar as dores de quem tem fome”

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU