#RyanAndrewPresente – Até quando?

Eu vi um menino correndo / Eu vi o tempo brincando ao redor / Do caminho daquele menino

Salvador, sexta-feira, 26 de março de 2021. Brasil amarga o trágico numero de 3650 mortos por conta do novo coronavírus. Nordeste de Amaralina, 22h, o jovem Ryan Andrew, nove anos de idade, é mais um jovem negro morador da periferia da cidade a ter sua vida abreviada durante uma ação policial. Tão letal e cruel quanto a covid-19 é o braço armado do estado dentro da favela.

Ryan morava na Rua da Bananeira, no Vale das Pedrinhas. Talvez sonhasse em se tornar jogador de futebol, médico, engenheiro ou doutor. No entanto, as circunstancias lhe fizeram apenas estatísticas. Ele é um dos milhões de jovens, em sua grossa maioria afrodescendente, a ter seu destino ceifado durante uma ação policial.  Há onze anos, mais precisamente no dia 21 de novembro de 2010, o também morador do Complexo Nordeste de Amaralina, Joel Conceição, dez anos, foi cruelmente assassinado pela PM durante abordagens semelhantes à essa que culminou com a morte de Ryan. Joel dormia dentro de casa quando a bala atravessou janela do quarto. Ryan brincava na varanda da sua humilde residência quando teve sua cabeça atingida.

Uma “bala perdida”, mais uma vez, acerta em cheio a juventude negra da cidade. Por parte dos órgãos oficiais as informações são sempre fajutas e desencontradas. Sobram desculpas: “após intensa troca de tiros…”, “os policiais foram recebidos a tiros”, argumentam os meganhas.  A injustiça, por sua vez, é costumeiramente ineficaz. Somam-se os corpos e falta-se culpados. A impunidade reina diante desse tipo de crime, onde as vítimas são negras e moradoras da periferia.  

Amanhã, ainda à luz do acontecimento, quando o cadáver ainda pulsa, sobrarão discursos de ordem e promessas de justiça. No entanto, com o passar dos dias o caso do menino Ryan será apenas mais um. Quiça uma dia seja homenageado, como fora Joel  emprestando seu nome a uma unidade de saúde ou escola. Mas, nos corações de seus pais, agora  órfãos da sua presença ,  assim como nos corações dos pais dos milhões de garotos e garotas com vidas semelhantes à sua, o vazio jamais será preenchido. Vai com Deus, Ryan.

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU