Ô, prefs! Cadê os ônibus do Complexo?

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Antes de continuar essa leitura, é importante dizer que tentamos, sim, contato com a Secretaria de Mobilidade. Mas, até o momento do fechamento deste texto de opinião, que, aliás, nem sei se é texto ou desabafo em tempo real, não tivemos resposta. O silêncio da Secretaria ecoa mais do que o buzão que nunca vem.

Sim, isso aqui é um texto de opinião. Ou melhor, um desabafo coletivo. Porque o autor, assim como você que me lê agora, tá no mesmo perrengue, no mesmo ponto, no mesmo sol, na mesma revolta. E essa conversa vai ser direta, como deve ser.

Não é de hoje que o transporte público é um problema crônico para os moradores do Complexo do Nordeste de Amaralina. E olha que com a chegada dos “novos modais”, nome bonito, né? Parece que a cidade tá virando Dubai, tipo BRT e Metrô, o cenário só piorou. Sim, piorou. Porque é sempre assim: colocam coisa nova no papel, botam em prática sem escutar quem depende disso pra viver e, no fim das contas, quem mora na favela é que paga o pato, ou melhor, espera o ônibus.

É claro que a ideia de integração é linda. Facilitar a mobilidade, reduzir o tempo de trajeto… tudo parece incrível nas apresentações de PowerPoint nas reuniões da prefeitura. Mas na prática, meu amigo, quem mora aqui sabe: pra sair do bairro é uma luta, e pra voltar, então, é quase uma procissão. Só falta a vela.

E vamos combinar? Nem vou entrar muito nos ônibus caindo aos pedaços que nos empurraram goela abaixo. Porque isso já virou padrão. Salvador é tropical, quente, abafada, mas alguém, com muita genialidade, decidiu que o povo deve suar mesmo, e meteu ônibus com janela só em cima. Isso mesmo, só lá em cima. Se você não tem 1,70m, não tem direito a respirar. Parabéns aos envolvidos!

O que falta? Ah, claro, falta dar o cargo certo à pessoa errada. Porque é só isso que explicaria termos um Secretário de Mobilidade que, aparentemente, nunca pegou um buzu às 6h da manhã no Vale das Pedrinhas. A sensação é que a Secretaria virou um joguinho de War: cada um quer conquistar seu território, mas ninguém pisa no nosso chão.

Talvez se a gestão tivesse mais Andrea Silva e menos Pablo Souza, as coisas fossem diferentes. Andrea conhece o cheiro do buzu cheio, o cansaço da espera, a tensão de embarcar num ônibus que pode ou não passar hoje. Afinal, por muito tempo ela viveu a “vida no buzu”.

Aliás, só no bairro da Santa Cruz, quatro linhas sumiram como mágica: Campo Grande R1 e R2, Barroquinha (via Vasco) e Barroquinha (via Brotas). Sumiram. Evaporaram. No Vale das Pedrinhas, a linha virou uma só, um verdadeiro “combo de sofrimento”. E no Nordeste de Amaralina… bom, melhor nem comentar, senão o texto vira denúncia.

E sabe qual é o problema maior? É que isso vai acontecendo aos poucos. Um ônibus a menos aqui, uma linha cortada ali, uma espera de 43 minutos acolá (como foi o meu caso hoje, de pé, escrevendo esse texto dentro do ônibus lotado, com o braço tremendo e o celular quase caindo). E o povo vai sentindo. O povo vai se acostumando com o pior. O sofrimento vai virando rotina.

Sair do bairro virou estratégia de guerra. Você não pode simplesmente “pegar o ônibus”. Tem que planejar, consultar oráculos, rezar três ave-marias, e ainda assim talvez ele não passe. E quando passa, lotado, suado e quebrado, você entra com um sorriso falso só de ter chegado ao seu destino. A que custo?

A verdade é dura, mas precisa ser dita: estamos sendo esquecidos. Cortam linhas, aumentam a espera, diminuem o conforto e seguem com os discursos de que “a cidade está avançando”. Avançando pra onde? Porque pra cá, pro Complexo, parece que estamos regredindo.

E por fim, se alguém da prefeitura estiver lendo isso (vai que, né?): não estamos pedindo luxo. Estamos pedindo respeito. Mobilidade digna é direito, não favor.

Enquanto isso… seguimos aqui, de pé, no buzu, digitando com uma mão e segurando com a outra pra não cair. Porque a luta começa no ponto de ônibus.

Robert Santos
Robert Santos
Um taurino falando de tudo um pouco. Vez ou outra o assunto é sério. Tô sempre procurando maneiras melhores de viver a vida e reclamando no caminho porque ninguém é de ferro.

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