No último sábado (14), o Complexo do Nordeste de Amaralina vibrou com versos e expressões que carregam a força da ancestralidade e a potência da juventude periférica. O Sarau Kuá Ndanji fez o território ressoar sua arte e a força coletiva de um povo que cria e resiste. Na Casa Patrulha do Bem, localizada na Olaria, as portas abriram para receber a primeira edição do Sarau Cultural Kuá Ndanji. Protagonizado por jovens, o evento foi além de uma programação cultural: representando um gesto político de valorização da memória e da afirmação do direito à arte como ferramenta transformadora e mobilizadora nas comunidades.

A idealizadora do evento, Mona Kizola, tem 22 anos, é produtora cultural, poetisa, arte-educadora e candomblecista. Nascida e criada na Chapada do Rio Vermelho, Mona carrega o Nordeste de Amaralina não apenas como origem, mas como linguagem, presença corporal e compromisso político. Ela conta que a literatura cruzou seu caminho ainda na adolescência, nas aulas de arte da antiga Escola Estadual Cupertino de Lacerda, em Amaralina. Mas foi por meio das vivências no Odara – Instituto da Mulher Negra, onde acompanhava a mãe em um projeto, que ela se reconheceu, de fato, como poeta.
“Eu sempre tive que sair do Nordeste para fazer teatro, moda, poesia… e aí pensei: por que não podemos ter esses espaços aqui também?”
Foi desse incômodo que nasceu o Coletivo Kuá Ndanji, em 2024, nome que vem da língua Kimbundo e significa “pela raiz”. A escolha do nome expressa o princípio que move o grupo: “transformar o território a partir do pertencimento, da ancestralidade e da potência da juventude periférica“. O coletivo desenvolve ações principalmente nas escolas de Salvador, como o Sarau Kuá Ndanji, a Batalha Kuá Ndanji (BKN) e a Roda Kuá Ndanji, reunindo arte, cultura e formação política.

Reunindo cerca de 50 pessoas (entre jovens, crianças e idosos) o sarau aconteceu em uma atmosfera acolhedora e vibrante. Além dos convidados, dezenas de artistas locais se apresentaram com música, poesia, rima, performance, além de exposições de pinturas, fotografias e crochês. A Feira Preta, conhecida por valorizar a produção artesanal negra, também ocupou o espaço, promovendo a economia criativa da “quebrada”.
A programação do sarau contou também com o lançamento do livro “Bakulo”, da escritora e advogada Kota Gandaleci, filha do Nordeste de Amaralina. A obra reúne poesias que celebram a ancestralidade e a resistência negra, dialogando diretamente com as vivências da juventude periférica. Ao lançar o livro dentro da comunidade onde cresceu, Kota reafirma a importância de fortalecer os laços entre literatura, território e pertencimento. “O sarau é um mecanismo de sobrevivência para a juventude periférica.
Nesse espaço a gente se reconhece, constrói identidade e transforma dor em linguagem, apagamento em presença, silêncio em criação”, afirma a autora.

Para o artista Hórus Sampaio, de 18 anos, morador da Santa Cruz e neto de um ex-professor de percussão da UFBA, o sarau representa um passo significativo não apenas para o bairro, mas para toda a cena cultural da cidade:
“Esse evento foi importante não só para o Nordeste, mas para o cenário cultural de Salvador. Garantir visibilidade e acesso à cultura também é uma responsabilidade nossa, enquanto moradores. Espero ver novas edições acontecendo.”
A artista visual Luana Souza, de 28 anos, moradora da Santa Cruz, destacou a potência e a diversidade do encontro: “Participar do sarau foi uma experiência construtiva. Foi bonito ver o espaço tomado por tantas expressões diferentes, onde pude compartilhar meus desenhos, me reconhecer e também vivenciar histórias e vozes de outros artistas.”
Já a produtora cultural, escritora e poetisa Adriele do Carmo, de 28 anos, também cria da Santa Cruz, vê o evento como um ato de fortalecimento comunitário: “Esse movimento artístico no bairro é uma oportunidade de criar ainda mais conexões e fortalecer vínculos de solidariedade, luta e orgulho da nossa comunidade.”

O evento foi realizado em parceria com a Casa Patrulha do Bem, espaço localizado na Olaria, no Complexo do Nordeste de Amaralina. A iniciativa criada e coordenada por Fabiane Mota, de 41 anos, estudante de Serviço Social e moradora do Sítio Caruano. Fundada em 2009, a Patrulha do Bem é uma organização social sem fins lucrativos que atua na linha de frente do combate à fome, desenvolvendo ações voltadas à oferta de alimentação para populações em situação de vulnerabilidade, tanto no bairro quanto em outros territórios periféricos de Salvador.

Para Fabiane, essa foi a primeira vez participando diretamente de um sarau e a vivência, segundo ela, foi marcante: “Fiquei encantada com a inteligência e a capacidade criativa dos jovens na batalha de rimas. Gostei muito do evento. Foi forte, vivo e surpreendente.”
Mesmo sem financiamento ou apoio institucional, o Sarau Kuá Ndanji aconteceu pela força da coletividade e do compromisso em transformar o território por meio da arte. A juventude presente reafirmou que a “quebrada“ não apenas produz cultura, ela é uma cultura viva, pulsante e urgente. O evento deixou um recado incontornável: a periferia não é sinônimo de carência, mas um território de criação, resistência e invenção de futuros possíveis.