Opinião | Pagodão virou pornografia? A destruição de um ritmo que já foi orgulho da Bahia

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Sou da geração que curtia pagodão em casas como Mamagaia, Estação da Cerveja, Madre Codeba e tantas outras que marcaram Salvador. Naquele tempo, o pagode baiano era sinônimo de diversão, descontração e energia contagiante. Porém, ao olhar para o cenário atual, a pergunta que não sai da minha cabeça é: o que estão fazendo com o nosso pagodão?

O ritmo que já foi orgulho popular e expressão de criatividade virou, em muitos casos, um verdadeiro palco de sexo público disfarçado de música. Não se trata apenas da ousadia que sempre fez parte do DNA do gênero mas sim da perda de qualidade, tanto nas letras quanto na sonoridade. Hoje, parece não existir mais preocupação em criar uma identidade musical.

Depois da onda dos bloquinhos, todo mundo virou cantor. A democratização até poderia ser positiva, mas o crescimento acelerado trouxe junto composições rasas, repetitivas e recheadas de conteúdo explícito, onde cada letra se transforma em uma orgia, desrespeitando valores, famílias e até mesmo a própria história do pagode.

E como fica o pai ou a mãe que leva o filho pequeno para um show desses? Que exemplo está sendo transmitido? O pagode sempre teve seu espaço para o duplo sentido, mas era um duplo sentido inteligente, criativo e divertido, como faziam Harmonia do Samba, Nossa Juventude, Pagodart, Oz Bambaz, Selakuatro e tantas outras bandas que ajudaram a consolidar carreiras e sustentar o gênero até hoje.

Ainda temos nomes que carregam essa essência como Léo Santana, Márcio Victor (Psirico), Xanddy, Lincoln Sena, O Kanalha, Tonny Salles, Igor Kannário , Falcão da Guig e outros artistas que sabem equilibrar inovação com respeito à tradição.

Mas aqui cabe uma reflexão: será que os cantores da nova geração realmente acreditam que cantando músicas dessa qualidade vão construir uma carreira próspera e duradoura? Muitas vezes, um hit viraliza nas redes sociais, mas logo cai no esquecimento. Vale a pena “sujar” a música em troca de minutos de fama e depois não conseguir espaço em grandes eventos, convites para programas de televisão ou reconhecimento em festivais importantes?

O pagodão merece mais do que hits passageiros ele precisa de artistas que honrem sua essência e consolidem legados, como já vimos em outras gerações.

Sonho com o dia em que o pagodão volte a ser celebrado pela sua irreverência criativa e não pela vulgaridade. Porque o nosso pagode baiano merece respeito e precisa ocupar, novamente, o lugar que conquistou na cultura popular da Bahia.

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Jefferson Borges
Jefferson Borges
Publicitário, Ativista Social e Fundador do Portal NORDESTeuSOU.

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