A gente cresce ouvindo que o perigo está na rua, no desconhecido, no “estranho”. Mas a realidade, muitas vezes, é outra e muito mais assustadora: o perigo, quase sempre, está por perto.
No Brasil, a maioria dos casos de violência contra crianças não acontece em becos escuros ou por pessoas desconhecidas. Acontece dentro de casa, ou com alguém de confiança.
Dados mostram que cerca de 68% das agressões contra crianças são cometidas por familiares ou pessoas conhecidas. E mais de 70% desses crimes acontecem dentro da própria residência da vítima.
Ou seja, o lugar que deveria proteger muitas vezes é onde o perigo começa.
Outro dado que assusta: o Brasil registrou mais de 164 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes em apenas três anos. Isso significa que, a cada dia, centenas de vidas são marcadas por traumas profundos e muitos desses casos sequer chegam a ser denunciados.
Especialistas alertam que apenas uma pequena parte dos abusos é notificada, o que indica que a realidade pode ser ainda mais grave.
Casos como o de Thamiris escancaram uma dor coletiva: a de perceber que, muitas vezes, o monstro não vem de fora, ele já estava dentro do convívio.
É duro dizer isso. Mas é necessário.
Quantas vezes uma criança já pediu ajuda em silêncio?
Quantos sinais foram ignorados?
Quantas histórias terminaram antes mesmo de começar?
A revolta que toma conta das ruas é compreensível. A dor da família é imensurável. Mas, além da indignação, esse momento precisa servir de reflexão.
Proteger crianças não é só um papel da polícia. É da família, da escola, dos vizinhos, de toda a sociedade.
Porque enquanto a gente continuar achando que o perigo está longe, muitas crianças vão continuar sofrendo bem perto.
E, às vezes, perto demais.




