[Opinião] Pacto da Cisgeneridade

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Por Paullet Furacão


Muito se fala sobre o pacto da branquitude o qual limita pessoas negras, em sua maioria cisgêneras, de alcançarem direitos essenciais, nos quais acordos são minuciosamente organizados em torno da dominação de outro segmento, desenvolvendo mecanismo de sustentação de um projeto de poder, denunciados pela Doutora em Psicologia  e Escritora Cida Bento que, através do seu ativismo ferrenho, tem dedicado a sua vida para decifrar, através da sua intelectualidade africanizada, os códigos de bloqueios a acessos de direitos contra a população negra no Brasil.


Através deste pacto narcisista da branquitude denunciada pela mesma, autora o Brasil tem fomentado em média 89,9% assassinatos de pessoas negras por dia ou a cada 16 minutos, segundo dados do Atlas da Violência 2026.


Infelizmente existem outros pactos silenciosos que causam terríveis impactos no segmento de pessoas transexuais e travestis no mundo inteiro. Diferente do pacto da branquitude que tem como alvo pessoas negras, há um consenso quase que patológico em todas as camadas sociais sobre o extermínio da população trans e travestis, consequentemente das identidades de gênero que consegue unificar todos os setores cisgêneros do planeta rompendo com o conceito interseccional.


A política e o fundamentalismo religioso são as principais armas utilizadas como estratégia para o fomento e manutenção das violências contra a população de transexuais e travestis. Dentre suas vítimas mais simbólicas, destaco as ativistas Marsha P. Joh, Silvia Rivera (ambas lideraram a Revolta de Stonewall), Erica Hilton (Transfobia no Congresso Nacional). O mais espantoso é a adesão violenta de exclusão da identidade de gênero do próprio movimento organizado LGBTQIAPN+ que há mais de 50 anos luta por liberdade sexual e políticas públicas e que hoje pregam a exclusão da sigla TT do movimento. Para ilustrar os desafios percorridos pelo segmento de travestis e transexuais, sem esquecer do ativismo solitário de Xica Manicongo que é considerada a primeira vítima de Tráfico de pessoas e Transfobia institucional do Brasil pré-colonial.


O dossiê apresentado anualmente pela associação de Travestis e Transexuais (ANTRA) aponta que o Brasil detém o título de nação mais perigosa para a população de travestis e transexuais no mundo inteiro. Garantido sistematicamente o apagamento do segmento, contribuindo para a extinção das poucas políticas públicas conquistadas no Supremo Tribunal Federal, como a retificação do nome civil; nome social; equiparação do crime de racismo; e casamento homoafetivo dentre outras; que de tão pontuais, e sem total apoio do Congresso Nacional, são classificadas como gambiarras sociais, produzindo sucos de adoecimento e suicidios sociais.
A discrepância hipócrita destas violências pelos quais 90% das pessoas transexuais e travestis permanecem submetidas, quase exclusivamente atuando na prostituição compulsória, está no consumo expressivo de material pornográfico de pessoas transexuais e travestis. O Brasil também lidera a busca e visualizações de plataformas destinadas ao segmento. Contribuindo para a hipersexualização dos corpos transexuais e travestis, mantendo a perpetuação desta condição de abjetas e influenciando na escassez das relações afetivas.
Até mesmo, setores que são considerados progressistas como: Universidades, partidos políticos e empresas privadas com politicas voltadas para a diversidade LGBTQIANP+, tem fornecido de forma indireta, contribuições expressivas para o apagamento e fomento de transfobias simbólicas e recreativas, contribuindo para o adoecimento mental do invisível segmento. Destaco um relato emocionante de uma pessoa transexual que conseguiu romper a bolha profissional e que atua em determinado espaço institucional no estado da Bahia, que por não suportar a pressão violenta exigida pelo predomínio da cisgeneridade, tendo como desafios a reafirmação diária da sua identidade de gênero e consequentemente contribuindo para o agravamento significativo da sua disforia de gênero, cogitou-se em um determinado momento de ansiedade e desespero, jogar-se do prédio no qual atua profissionalmente.
 
 
Diante dessas afirmações, faz-se necessário um debate amplo acerca dos temas expostos, para o rompimento definitivo de todos, todas e todes os pactos de fomento as violências, discriminações e exclusões dos segmentos, afim, de estancar a ferida mutilada na carta da Declaração dos Direitos Humanos, para que sejam verdadeiramente fundamentais e universais os direitos para todos os seres humanos.
 
Paulett Furacão
Coordenadora do Coletivo LGBTQIAPN+ Laleska D’ Capri

Redação NES
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