[Talento NES] Abará, Abará Man, Abarives: o “baixista dos tambores”

            Radicado no bairro de Acupe de Brotas, Abará tem amizades fortes no Nordeste de Amaralina. Está sempre pela comunidade tocando violão, compondo, tomando uma cervejinha e fazendo churrascos com seus amigos Tata, Zão e Camundinga.

            O apelido veio justamente por sua mãe ser baiana de acarajé: “Eu queria matar quem me chamava de Abará, rs”. Quis o destino, a sorte e, principalmente, o trabalho árduo, que ele ficasse conhecido pelo nome dessa iguaria que a gente ama!

            Começou a tocar profissionalmente aos 14 anos: “Era um sonho, uma loucura, uma coisa que me consumia e, graças a Deus, segui essa profissão”.

            Seu primeiro grupo de percussão – Banda Renascer – não tinha condições de comprar instrumentos: “Peguei latas, baldes e comecei a montar… Veio um monte de loucos atrás de mim!” Um amigo mais velho, na época, passou a levá-lo aos ensaios dos Comanches e dos Apaches: “Eu ficava desesperado para estar no palco tocando. Dei algumas canjas, mas não consegui me manter. Era muito pequeno, muito novo”.

            Mais tarde, montou um grupo de samba junino – “Samba Menino” – já com instrumentos profissionais. “Na época, tentei me inscrever até no Olodum, mas não consegui de cara!” (Palavras da colunista: se eu fosse o Olodum, estaria me arrependendo até hoje! Rs).

            Numa 2ª oportunidade para teste na banda do Pelourinho, ele soube que a Timbalada também estava fazendo testes no Candeal e resolveu passar lá antes. Palmas para o feeling de Carlinhos Brown, que foi taxativo: “Venha no sábado ensaiar! Quero conhecer seu talento!” Abará ensaiou no sábado e começou a tocar no dia seguinte. Ponto para a Timbalada!

            Ficou 17 anos na banda, até que resolveu sair. Tocou com Ninha e outros artistas. Menos de 1 ano depois,  Brown chamou o músico de volta. “Carlinhos me chamou para fazer algo nos shows porque alguém da banda não poderia fazer, mas eu ainda tinha algumas apresentações com o Ninha também. Aí começou o meu martírio…rs.. Como é que vou fazer com Ninha?  Tinha que ir para a Europa fazer alguns shows com Carlinhos! Ninha entendeu… E nessa de fazer alguns shows com Brown, fui ficando, ficando, ficando. Lá se vão 13 anos!”

            Abará começou a estudar contrabaixo e, mesmo com receio, tocou o instrumento no Festival de Percussão da Argentina. “Só iriam os percussionistas e o tecladista, mas Brown precisava de um baixista para algumas músicas. Me jogou no bolo da harmonia, eu abracei a ideia e ele adorou. Hoje faço parte da banda como percussionista e como baixista”.

            Fã da Black Music, Abará diz que “é a música que bate e arrepia”. Como percussionista, ouve muito música cubana. “Mas o Pop, o Rock e o Funk são muito presentes na minha vida”.

            Falou sobre Funk e, num impulso carioquíssimo, comecei meus devaneios… “Cara, já pensou uma reedição do “Eu Amo Baile Funk” no Circo Voador, com os Mc´s das antigas, Mc Marcinho, que a cariocada adoooora… A gente brinca de Bela Gil, SUBSTITUÍ a bateria eletrônica do DJ e coloca percussão baiana com Abará?”… MENOS, Fayga! Ele estava falando sobre Black Music… rs

            O músico não esconde sua admiração por Brown: “É um cara que sempre acreditou nas próprias ideias. No começo, as pessoas não entendiam, mas depois o Brasil entendeu e hoje ele é o artista que é. Essa inspiração é importantíssima porque faz com que eu acredite em mim”. Abarives ainda exalta a importância de Arthur Maia, baixista falecido em 2018 (“um cara super humilde que me incentivou muito a tocar contrabaixo”) e do diretor Gerson Silva (“ele me chama de baixista dos tambores, me inspira muito!”).

            No início da pandemia, o artista ficou aflito com a incerteza do que o mundo estava vivendo. Mas, depois de algumas semanas, sua percepção mostrou que era preciso voltar a estudar e a produzir. Começou a compor mais músicas do que antes. “Mesmo produzindo coisas em casa, a pandemia atrapalha porque acaba nos afastando das pessoas que compram nossos arranjos e apostam em nossas composições. Não tem previsão de shows, o lado financeiro fica bastante prejudicado. Foi complicado e continua sendo. A gente vai se virando, vai tentando. Não dá para desistir”.

            Abará demonstra ainda mais seu pesar, com toda razão: “É muito difícil para o artista continuar estudando, trilhando e buscando oportunidades dentro da música quando não  consegue enxergar lá na frente a possibilidade  de colocar isso pra fora.  A gente acaba ficando estafado, angustiado e a coisa não sai…  Porque música é um estado de espírito, é alma! Não é algo que se estuda na escola e faz do mesmo jeito a vida inteira. A gente precisa sempre se reinventar, mudar a  postura, o estilo. Está sendo um momento muito difícil na vida da gente. Mas também foi bom para sair da zona de conforto, abrir o cérebro para outras possibilidades profissionais. Eu voltei a estudar, quero terminar meu curso de licenciatura em música. Quando a gente está tocando, viajando… Acaba sentando na zona de conforto e ficando ali. Sempre fui um cara que gosta de evoluir, que gosta de desafios. Não foi à toa que as pessoas me chamaram de louco quando viram que comecei a tocar contrabaixo… E hoje, além de percussionista, sou baixista também.”

            Casado e com dois filhos, Bianca e Dom, o músico se derrete ao falar deles: “Minha filha de 11 anos é maravilhosa, super tímida, mas tem uma voz linda!” O pai coruja não força nada, prefere que Bianca foque nos estudos, mas sempre coloca melodia e harmonia nas letras que ela apresenta. “Deus me abençoou com mais uma dádiva, um menino lindo de 1 ano e 5 meses. Estou mais presente com a família, coisa que era difícil por causa da quantidade de viagens e shows”. Se a música estiver no DNA de Dom, já podemos pensar num “Trio do Abará” daqui a alguns anos, o que acham??!!

            Assim como toda sua família, ele também segue o Candomblé: “Não sou muito assíduo, mas cuido dos meus Orixás. Faço tudo que é possível dentro do meu tempo e das minhas condições. Sigo em paz no que acredito. Primeiramente, Deus, que é o Pai de todos”.        

                        Papo vai, papo vem, mas… “Abará, qual é seu nome mesmo?”… “Jocimario Conceição”.

            Toca aqui quem não fazia ideia do nome verdadeiro dele, mas que bateu muitas palmas para as histórias fantásticas que ele contou!

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Fayga Cabral
Carioca, torcedora do Flamengo e do Bahia, vivendo em Salvador desde 2013. Analista de Redes em Mídias Sociais, Bacharela em Relações Internacionais. Depois que quarentou, resolveu ser estudante de História e de Letras. Ninguém é obrigado a ter um só caminho, uma só direção, uma só opinião.