Conheça a história de “Seu Lui”, 85 anos de muita vitalidade e amor à vida

Talentos o Nordeste de Amaralina de Amaralina tem de sobra. Na mais diversas áreas e idades. Exemplo disso é o contador, escritor, folião, corredor, dentre algumas coisas mais, Aloísio Pimentel, 85 anos, nascido no dia 17 de agosto de 1934, na cidade de Amargosa, no Centro Sul da Bahia, à 242 Km de Salvador. Sua mãe, dona Maria Firmina Pimentel trabalhava na produção de charutos quando, juntamente com os dois filhos, Aloísio e a irmã, Maria Custódia Pimentel veio aventurar-se na capital. Chegando na capital fixou residência na comunidade de Mirante, entre o Calabar e o Chame-Chame, como o próprio conta:


“Minha mãe fazia charutos, era charuteira. Sempre trabalhou com isso. Cheguei em Salvador com menos de três anos de idade. No Mirante passei toda a minha infância, me criei e conheci meus amigos. Fiquei lá até os meus trinta anos”.
Os parcos recursos ganhos por dona Firmina no nobre ofício de charuteira fizeram com que ainda aos nove anos, “Seu Lui”, como atualmente é conhecido, tivesse que largar os estudos e fosse trabalhar em uma oficina, inicialmente como aprendiz de pintor de carro. E daí não parou mais: “Depois fui para a construção civil e aos 14 anos já era um profissional da tinta. Sabia tudo de tinta. Aos 15, fui ser caixeiro de armazém, onde fiquei até os 17. Aos 19, trabalhei em uma fábrica de refrigerante. Aos 20, num laboratório de analises clinicas. Depois, voltei novamente para construção civil e só saí de lá aos 30 anos”.


“Só fiz o ginásio aos 20 anos, em uma escola particular. Depois fui para o colégio Central fazer o curso clássico, pois eu queria fazer Direito. Isso não foi possível porque tive que ir para Brasília pintar parede na Esplanada dos Ministérios”, completa.


Ao voltar da capital federal Aloísio foi informado de que havia perdido a vaga no Colégio Central, que na época era bastante concorrida. Mas, como Deus escreve certo por linhas tortas, quando estava sentado defronte ao Central chorando por não ter conseguido reaver sua matrícula, o jovem avistou em uma banca uma revista infantil. Mal sabia que aquela simples visão mudaria o drasticamente o curso do seu destino:


“Quando eu comprei a revista eu li: curso de Contabilidade por correspondência, do Instituto Universal Brasileiro. Fui para os Correios, botei o cupom e uma semana depois recebi todo formulário de matricula e o boleto para pagar. Conclusão: fiz esse curso por correspondência. A vontade cursar Direito já não ficou tão forte. Achei que a Contabilidade seria uma boa opção. Fiz o curso técnico de Contabilidade em 1961. Em 1964 consegui meu primeiro emprego de escritório como auxiliar de contabilidade. Posteriormente, comecei a trabalhar como chefe da Contabilidade. Precisa estudar mais. Fiz vestibular na Visconde de Cairu e cursei licenciatura em Contabilidade. Terminado o curso fui lecionar em colégios particular e convidado a trabalhar numa empresa grande. Nessa empresa fui chefe de pessoal, do setor de relações industriais, chefe do setor administrativo e chefe de custos. Depois, fiz concurso para o Estado e fui lotado para Colégio Governador Lomanto Junior, onde ensinei Contabilidade por 23 anos, além de desempenhar também a função de coordenador”.


Nordeste de Amaralina – O Complexo Nordeste de Amaralina entrou no destino de seu Aloísio há 54 anos, mais precisamente no ano de 1967. No bairro onde viveu uma vida, construiu uma relação de amor.
“Comprei um terreno, fiz uma casa e nela moro até hoje. Construí minha vida e constitui minha família aqui nesse local. Minha vivencia aqui na Santa Cruz foi muito boa. Amo muito a Santa Cruz, amo muito o Nordeste. Nunca pretendi sair daqui e estarei aqui até quando for necessário”, afirma “seu Pimentel”, que é hoje é viúvo, pai de cinco filhos e avô de .. netos.


Testemunha ocular da história, seu Aloísio elenca ainda algumas das muitas transformações sofridas pelo bairro ao longo das últimas cinco décadas:


“Vi mudança aqui. O Nordeste quase que não existia. Não tinha transporte aqui…A gente pegava o ônibus em frente ao Quartel de Amaralina. Muito anos depois foi que colocaram a linha de ônibus para o Nordeste. Na Santa Cruz chegou muito tempo depois. O Vale das Pedrinhas era só chácaras e hortas. Não tinha passagem, não tinha água encanada, energia, nada… A Rua Presidente Kennedy, onde moro, foi feita no braço, por eu e meus amigos através da pá, e da picareta. Foi muita dificuldade até chegar água e energia. O mundo foi mudando e o Nordeste e a Santa Cruz também”.


Educador de profissão e por natureza, seu Aloísio muda o tom quando o assunto é a violência dentro da comunidade onde criou os filhos e os netos. A falta de acesso à Educação é, segundo ele, o grande fator desencadeador dessa mazela que atinge as periferias da cidade:

“Antigamente a gente podia dormir com a porta aberta, não existia a violência que existe hoje. A Santa Cruz nunca teve muitas escolas e isso influenciou muito nas vidas das pessoas. As crianças que nasce aqui se tivessem uma boa educação e encaminhamento profissional, certamente seguiriam por um outro caminho. A bandidagem acaba abraçando a garotada e isso explica o crescimento da violência. Os bairros populares são olhados pelo poder público dentro daquilo que eles planejam para conseguir o voto do eleitor. Ninguém quer saber de nada. No passado o aluno chegava para estudar e saía com uma profissão de carpinteiro, pedreiro, pintor, chapista ou coisa parecida. Isso que falta aqui”.


Literatura – Aposentado desde o ano 2000, quando sua visão começou a dar os primeiros sinais, de cansaço, Pimentel continuou atuando no seu escritório de contabilidade. Mas em paralelo, começou a retomar o namoro com uma antiga paixão dos tempos de juventude e que por conta dos compromissos profissionais e familiares teve que forçadamente ser adiado: a literatura.


“A primeira vez que fiz alguma coisa na literatura eu tinha 17 anos, e foi na cidade de Amargosa, na primeira vez que retornei até a cidade. Lá, sentado em um banquinho na praça, fiz a minha primeira poesia chamada “Amargosa”. Depois fiz várias poesias e posteriormente comecei a escrever crônicas. Cheguei a ganhar algum dinheiro fazendo crônicas na Radio Sociedade da Bahia. Mas, tudo isso acabou ficando no túnel do tempo”.


“O primeiro livro que escrevi foi há seis anos atrás, “Viração: amor, amizade, paixão e sofrimento”. Em 2018, eu lancei o meu primeiro livro “Carnaval de Salvador: crônicas de um folião”. É um livro que conta a história de todo o carnaval da Bahia, de todo o seu folclore, tudo que aconteceu na festa de 1940 até os dias atuais. Depois escrevi o livro “Contos que não são de fada”, que ainda não foi editado. Escrevi também “Histórias do Brasil a 360 graus”. Escrevi ainda “O homem e a natureza”, “Futebol e paixão”, “Pedaços musicais”, dentro outros…Agora, estou escrevendo um novo livro “As 100 poesias da madrugada”, sendo que já tenho 70 prontas. Gosto de escrever, fazer e ouvir poesias”.


Com a visão totalmente comprometida, desde outubro do ano passado, nem o céu para ser limite para sua fonte inesgotável de criatividade e amor à vida:


“Internet é uma coisa nova em minha vida. Tenho Luís, que é uma pessoa que me auxilia, e é ele quem está editando os textos que eu falo. Gravo um texto e duas poesias, três vezes por semana. Minha inspiração literária é o próprio dia a dia da minha vida. O carnaval, por exemplo, eu acompanhei desde criança. O que escrevo é o que eu vivo, é o meu dia a dia, as cosias que estou acostumado a ver. Gosto de escrever sobre política, sobre a natureza. Chega na hora, como a poesia. Não faço a poesia, ela me faz, chega em mim”.

E não pára por aí: Seu Aloísio tem um perfil no Instagram e um canal no Youtube, ambos alimentados diariamente.


Carnaval – O carnaval é sem sombra de dúvidas uma das grandes paixões da sua vida. “Sou realmente um folião inveterado”, costuma dizer. Saudosista, ele lembra com entusiasmo do tempo das antigas escolas de samba e tece elogios ao carnaval do Circuito Mestre Bimba:


“O carnaval do Nordeste é o melhor de Salvador. Ultima vez que estive no carnaval de Salvador foi em 2018, quando meu neto estava aqui e eu fui com ele. Brinque, sambei, me esbaldei como se estivesse fazendo isso dentro da minha casa, no maior conforto do mundo, sem ninguém pisando em meu pé. É um carnaval e que as pessoas te respeitam. Não acredito que bairro nenhum de Salvador tenha um carnaval tão limpo como o do Nordeste. O Carnaval daqui vem do passado. A maior escola de samba que teve na Bahia, chamava-se Diplomata de Amaralina. Foi a mais bela, a maior e a mais inovadora. A Diplomata de Amaralina fez sucesso nacional. Pena que tenha acabado as escolas de samba”, finaliza.


Esporte –Ao longo das mais de oito décadas, “o coroa” mostra folego e vitalidade de botar inveja. A atividade esportiva sempre foi item obrigatório na rotina desse “menino de 85 anos”, seja nas pistas de corrida ou campo de futebol:


“Sou corredor de rua. A minha última corrida na São Silvestre foi em 2018 com 82 anos. Ainda consigo fazer corridas de 10km, apoiado em alguém segurando meu braço. Minha ultima corrida foi em fevereiro de 2020, em Paripe, quando fiz 15km. Tenho um mundo de medalhas e troféus. Hoje corro dentro de casa para não perder a forma física. Tenho 86 anos e quero envelhecer com saúde”.


Que Deus Seja Louvado, Seu Lui5

Mais informações:

YouTube- Aloísio Pimentel

Instagram- @aloisio.escritor

*Colaborou Luis Lago

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU