O bairro de Santa Cruz, em Salvador, tem sido alvo de constantes reclamações por parte dos moradores em relação aos inúmeros inconvenientes relacionados ao transporte público da região. Um dos principais problemas apontados pelos moradores é a extinção de algumas linhas, extintas pela Secretaria de Mobilidade, órgão vinculado à Prefeitura de Salvador.
De acordo com Evelin Oliveira, a comunidade sofre com horários inadequados e rotas extensas que dificultam a locomoção.
“A linha do R1 e R2 poderiam voltar porque eram linhas necessárias para a comunidade da Santa Cruz. A questão dos horários dos ônibus sempre foi horrível porque a gente sempre tem uma dificuldade a partir das 09h. O roteiro do Calçada/Bonfim é muito extenso, sendo desnecessário fazer a linha até a Praça Nossa Senhora da Luz. Deveriam colocar uma linha para voltar pela Praça Nossa Senhora da Luz ou orla. Porque não temos nenhum ônibus pela orla devido à integração. Tínhamos a opção do R2, mas agora não tem mais. Sem contar da precariedade do ônibus, ontem mesmo uma barata subiu na minha perna. Será que as empresas não possuem uma equipe de higiene?”.
Segundo informações apuradas, os problemas relatados por Evelin “não são isolados e refletem uma situação recorrente, uma vez que, o transporte público é fundamental para o deslocamento diário, especialmente para aqueles que não possuem veículos particulares”:
Com a implantação da integração, o bairro teve um grande desmonte da frota de ônibus, que antes possuía diversas linhas, como Barroquinha (Vasco da Gama), Calçada/Bonfim, Lapa, Campo Grande R1, Campo Grande R2 e Barroquinha (via Brotas). Atualmente, apenas as linhas Calçada/Bonfim e Lapa estão disponíveis, o que tem causado transtornos para os moradores. Além disso, os passageiros têm que andar longas distâncias para conseguir pegar um ônibus na saída do Parque da Cidade, já que as duas linhas disponíveis não são suficientes para suprir a demanda de saída do bairro para integração com outros ônibus ou BRT. O BRT, por sua vez, contribuiu com a redução da frota de ônibus no bairro, o que agrava ainda mais a situação para os moradores.
“Eu não pego mais transporte aqui no bairro. Eu vou logo pelo Parque da Cidade para não passar raiva. Mas quando não tinha e era necessário pegar um ônibus e soltar na Ceasa (mercado do Rio Vermelho) e fazer integração com os ônibus para subir o bairro era mais de 30 minutos esperando. Sendo que lá deveria passar todos os ônibus que dão acesso ao bairro. Às vezes, eu preferia subir andando a ficar esperando, perdendo tempo e paciência”, afirma Daniela Alves.
O morador Cleiton Cardoso, por exemplo, reclama da falta de logística adequada para diminuir o tempo de espera dos ônibus. Para ele, a quantidade atual de coletivos já não é suficiente para atender a demanda da região, e a redução da frota só vai piorar a situação.
“O transporte público aqui no bairro precisa melhorar a quantidade de coletivos e ver uma logística melhor para diminuir a espera. Na minha opinião, os que estão disponíveis não estão dando conta. Imagine agora que vão diminuir a quantidade de ônibus que atendem o bairro”, sinaliza.
O conceito de mobilidade tem sido desrespeitado, já que novos meios de transporte são adicionados enquanto outros são retirados, prejudicando a vida dos moradores. Para os moradores, essa decisão tem sido tomada por pessoas que não conhecem a rotina do usuário de transporte público e que não entendem a importância de garantir mobilidade para a população.
“Antes, saíamos de casa um pouco atrasados com a certeza de que haveria uma linha paliativa. Hoje, saímos de casa atrasados e nos atrasamos ainda mais, pois são poucas linhas (apenas 2 na Santa Cruz) e elas demoram muito para sair. Devido à redução de linhas, temos que sair quase 2 horas antes para chegar ao trabalho a tempo. No meu caso, por exemplo, trabalho na cidade baixa e, só na Santa Cruz, fico de 20 a 30 minutos esperando. Essa problemática se agrava nos finais de semana e à noite, visto que a frota é reduzida”, conta em depoimento à reportagem, Elizeu Ribeiro, morador da região da Santa Cruz, relata os impactos da redução da frota de ônibus no bairro
É importante lembrar que essas decisões afetam principalmente as pessoas com pouca mobilidade, como idosos, gestantes e pessoas com deficiência (PcD), que sofrem ainda mais com a falta de transporte público de qualidade.Outrossim, a falta de consideração com aqueles que não possuem habilidades digitais para utilizar a integração, apenas agrava a situação.
“É um absurdo aos poucos estarem excluindo nosso bairro da sociedade, sendo que os moradores daqui também pagam impostos e o transporte é um direito nosso. Além disso, minha mãe é um belo exemplo, uma senhora idosa que ainda está presa aos antigos costumes de pagar em cédulas e é semianalfabeta, portanto, não faz parte do grupo que utiliza a integração. E hoje em dia, somos obrigados a isso: se você quiser ir para a Barra, é preciso pegar um ônibus dentro do bairro e, em seguida, pegar outro no caminho ou caminhar quilômetros até o Vale ou para as vias principais, como a ACM, para pegar um ônibus direto. Aos poucos, vão excluir todas as linhas do bairro e teremos que vir andando até o bairro”, destaca Verena Cruz.
Essa situação é bastante preocupante, especialmente porque afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores. A espera prolongada por um transporte público que já é precário pode ser extremamente desgastante e prejudicar o dia a dia de muitas pessoas, como trabalhadores, estudantes e idosos.A população precisa de um serviço de transporte público eficiente e seguro para poder cumprir suas obrigações e garantir seu sustento.
É preciso lembrar que as decisões relativas ao transporte público no bairro são tomadas sem consulta majoritária da população, o que demonstra a falta de interesse das autoridades em ouvir os principais interessados na questão. A falta de participação popular nas decisões afeta diretamente a qualidade do serviço prestado.
É fundamental que as autoridades sejam sensíveis às demandas dos moradores da Santa Cruz e tomem medidas efetivas para melhorar o transporte público na região. Isso pode ser feito, por exemplo, aumentando o número de coletivos, melhorando a qualidade da frota e promovendo uma logística mais eficiente.
A redução da frota de ônibus no bairro da Santa Cruz é uma medida que vai prejudicar ainda mais a já precária situação do transporte público na região. É preciso que as autoridades sejam mais sensíveis aos problemas enfrentados pelos moradores e tomem medidas efetivas para melhorar a mobilidade urbana na cidade como um todo. Afinal, um transporte público eficiente é um direito básico de todo cidadão e um fator importante para o desenvolvimento social e econômico da região.
Contraponto
O NORDESTeuSOU entrou em contato com a Secretaria de Mobilidade de Salvador (SEMOB) por telefone para questionar a respeito da situação relatada pelos moradores da Santa Cruz em relação à frota reduzida de ônibus no bairro. O órgão se comprometeu a enviar uma nota sobre o assunto, entretanto, até o fechamento desta matéria, ainda não havia se pronunciado.




