Aos 44 anos, mãe de três filhos e moradora do Vale das Pedrinhas, Daniela dos Santos Silva, a “Dani”, tornou-se uma referência de protagonismo e resistência na comunidade do Nordeste de Amaralina.
Nascida em Embu das Artes, São Paulo, criada em Baixa Grande, Dani enfrentou uma infância de ausências, mas encontrou na figura de sua avó a base para transformar sua realidade. “Cheguei de São Paulo ainda bebê, em Salvador aos 14 anos, e passando a morar no Vale das Pedrinhas aos 16 anos. Tento dar a esses jovens tudo o que eu quis e não tive. Fui criada pelos meus avós, enquanto minha mãe saía para trabalhar. Morei na roça, onde o afeto e o acolhimento eram raros. O projeto surgiu para dar a eles o carinho que me faltou”, revela.
O desejo de acolher meninas da comunidade ganhou forma através do Editorial Moda. O projeto, idealizado por sua filha aos 16 anos após vencer o concurso Garota BCS, cresceu sob os cuidados de Dani. Mais do que passarela, o projeto virou um centro de afirmação da identidade negra.
“Ali acolhi e amei cada integrante como um filho. Fiz muitas meninas abandonarem a prancha para assumirem sua verdadeira beleza, se reconhecendo como mulheres negras. Fizemos jovens assumirem sua verdadeira coroa: o black”, conta orgulhosa, citando exemplos como Letícia e Douglas Cerqueira, que passaram pelo projeto e hoje ganham o mundo.

Dani relata que o cuidado com o outro exige, também, um olhar para si mesma. Após enfrentar crises de ansiedade e mergulhar em dores profundas ao acolher jovens em situações vulneráveis, ela entendeu que precisava estar forte para continuar sua missão.
“As tranças, que foram meu pesadelo na infância, hoje são meu combustível. É o meu refúgio. Colocar trança em uma mulher é saber que estou depositando ali toda a autoestima dela. Ver o sorriso de uma cliente no espelho me alimenta; é um objetivo cumprido”, diz Dani, que transformou sua dor em um novo recomeço com a criação do DH Studio.
Hoje, o estúdio é o símbolo de sua ancestralidade. É o fruto da luta de sua avó, Dona Luzia Maria, que criou sete netas dividindo o tempo entre a roça e a escola.
“O DH Studio é para me lembrar de onde venho e quem eu sou. É o legado de uma avó que, diante de toda dificuldade, garantiu que as netas estudassem. Tudo o que sou e faço é o cultivo positivo dos ensinamentos dela. Em cada trança, entrego meu amor, minha ancestralidade e minha gratidão à minha comunidade que me acolheu desde sempre”, finaliza.




