A trajetória de Vera Lúcia Jesus Bispo Ferreira é marcada por dedicação à educação, à fé e ao trabalho comunitário. Nascida e criada no bairro da Santa Cruz, em Salvador, ela construiu, ao longo de mais de três décadas, uma história de atuação direta na formação de crianças, jovens e adultos dentro e fora da sala de aula.
Filha do eletricista autônomo João Bispo e da trabalhadora doméstica Vilma Corrêa de Jesus, Vera passou cerca de 23 anos vivendo na Rua da Mendoeira, na Santa Cruz. Foi nesse ambiente comunitário que surgiram os primeiros passos de sua missão com a educação e com o trabalho social.
história começou dentro da igreja. Após participar da catequese na Capela Nossa Senhora das Graças, da Paróquia Santo André, Vera foi convidada a se tornar catequista. O trabalho com crianças e adolescentes despertou nela o desejo de ensinar. “Ali dentro de mim nasceu uma vontade de ir adiante, de ensinar, de lecionar em sala de aula, de trabalhar com jovens e com pessoas”, relembra.
Com o tempo, ela passou a coordenar diferentes grupos da comunidade, incluindo a catequese, o grupo Perseverança, o mini-jovem e o grupo jovem Esperança de Cristo. As atividades iam além dos encontros religiosos e incluíam ações sociais, eventos culturais e mobilizações comunitárias.


Entre as iniciativas organizadas por Vera estava a campanha “Acolhe o Povo de Deus”, que reunia jovens da comunidade para arrecadar alimentos destinados a famílias em situação de vulnerabilidade. Os próprios jovens realizavam o levantamento das necessidades e montavam cestas básicas que eram distribuídas porta a porta. “A gente recolhia os alimentos, organizava as cestas e ia entregar nas casas. Muitas vezes as pessoas até pensavam que a gente trabalhava na prefeitura”, conta.
Outra frente de atuação eram as visitas a orfanatos e casas de idosos. Sem recursos para transporte, os jovens utilizavam ônibus coletivos e levavam alimentos e doações para passar o dia com as crianças e idosos. “A gente levava comida, brincadeiras, fazia teatro, jogava bola. Era um dia inteiro de convivência”, lembra.
O envolvimento com essas atividades despertou definitivamente o interesse pela educação. Vera cursou o magistério no Instituto Social de Educação Isaías Alves (ISEA) e realizou estágios em escolas da capital.
A primeira experiência profissional foi em uma creche escola no bairro do Rio Vermelho. Mesmo quando a função era apenas cuidar das crianças, Vera decidiu iniciar atividades pedagógicas por conta própria. “Eu pedia escondido aos pais que trouxessem cadernos. Dizia: traga caderno, traga caderno”, conta.
A iniciativa acabou incentivando a direção da creche a formalizar o espaço como instituição escolar. Vera permaneceu no local por seis anos.
Posteriormente, atuou em outras escolas comunitárias e também participou de programas de educação de jovens e adultos pela rede municipal de ensino. Para ela, alfabetizar pessoas mais velhas foi uma das experiências mais marcantes da carreira. “Ensinar um idoso a ler é algo maravilhoso”, afirma.

Além da educação, Vera também trabalhou durante cerca de oito anos na Defensoria Pública, onde era responsável por uma copiadora. Mesmo fora da sala de aula, manteve o vínculo com jovens, principalmente com estagiários que frequentavam o setor. Depois dessa experiência, atuou ainda como secretária na Igreja Santa Luzia.
O retorno ao ensino aconteceu de forma inesperada durante a pandemia. Um antigo aluno a reconheceu na rua e comentou com uma vizinha sobre a professora que havia marcado sua vida. A partir desse incentivo, Vera decidiu retomar as atividades educacionais.
Hoje ela mantém um reforço escolar em casa, atendendo mais de 50 crianças em diferentes turnos. O espaço conta com três auxiliares e funciona com turmas ao longo do dia. “Quando a gente faz com amor, a gente não vê dificuldade. Hoje meu trabalho cresceu muito e todas as crianças chegam por indicação”, explica.
Além das aulas, Vera também organiza atividades externas com os alunos, como passeios em parques, eventos culturais e momentos de convivência comunitária. “Eu sempre gostei de inquietar as pessoas, de fazer movimento, de sair um pouco da rotina”, diz.
Ao longo dessa trajetória, Vera também ajudou a consolidar um dos eventos tradicionais da comunidade, a quermesse junina, realizada há mais de 30 anos pela Capela Nossa Senhora das Graças, na Praça da Rua 9 de Janeiro. O evento reúne barracas com comidas típicas, apresentações culturais, música e atividades organizadas por moradores e jovens da comunidade. “É tudo muito animado, com barracas enfeitadas, comidas do São João e apresentações culturais dos jovens”, lembra.
Na vida pessoal, Vera é mãe de Vitor, que recentemente foi aprovado no Enem e dará continuidade aos estudos no IFBA na área de mecânica. Atualmente ela também vive com o companheiro Marcelo, com quem mantém uma relação há cerca de dez anos.
Mesmo após décadas de atuação, Vera afirma que continua motivada pelo mesmo propósito que surgiu ainda na juventude, contribuir para a formação das pessoas. “O não a gente já tem lá fora. Aqui dentro a gente precisa dar o nosso sim, com foco, determinação e amor pelo que faz”, afirma.




