O sol mal se pôs sobre o segundo dia de folia neste Nordeste caloroso e as línguas já estão afiadas. Se vocês buscavam discrição, lamento informar, mas escolheram a festa errada.
Afirmaram que este ano os atrasos seriam lenda. Ora, parece que a única coisa que corre pontualmente por aqui é a nossa paciência diretamente para o ralo. Políticos prometendo o impossível é um clichê tão antigo quanto a roda, mas ver quem ainda nem sentou na cadeira já praticando a arte de não cumprir o que diz… bem, é um talento precoce, admitamos.
Será que é pedir demais que os blocos aceitem o inevitável? O “ir e vir” virou um “nem vai, nem vem”. Talvez um percurso de ida sem volta fosse menos penoso para o povo.
Ontem, o dia começou com o despertar precoce de Zau Pássaro. O cantor, cujas asas foram podadas no Circuito Mestre Bimba no dia anterior, finalmente tentou alçar voo. O problema? Ele saiu tão cedo que o único “metendo dança” que se via era da equipe de redes do NES. Não deu para o CLT ver o voo dos pássaros, e a pipoca, infelizmente, parecia mais um milho que esqueceram de estourar.
Logo atrás, fomos agraciados pela presença de MC Sagat (anteriormente SagatEuSou, para os íntimos). Ele desfilou sua Pipoca Cultural do Hip Hop e é verdadeiramente fascinante como o Carnaval aceita tudo, não é mesmo? Uma democracia rítmica onde há gosto para todo tipo de… audácia.
E por falar em audácia, o bloco Asa Surf Reggae pela Paz trouxe aquela energia que só o pessoal do reggae possui. Uma serenidade tão profunda que eu, em minha natureza levemente ácida, mal consigo compreender. Um dia, quem sabe, eu atinja esse nível de elevação espiritual. O Colar de Concha seguiu a mesma trilha, com um senhor ostentando um bandeirão que faria qualquer rastafári aplaudir de pé. “Esqueça tudo!”, como dizem os jovens.
No entanto, nem tudo é deboche. As mulheres das Direitinhas deram o ar da graça com o samba “O Pretinho”, carregando a bandeira necessária contra o feminicídio. Esperamos sinceramente que, no próximo ano, a comunidade abrace esse bloco com a mesma força com que abraça uma cerveja gelada. Algumas causas merecem o mar de gente que ostentam.
E, por falar em majestade, o Ilê Aiyê atravessou a Liberdade para abençoar o Nordeste de Amaralina. Cinquenta e um anos de glória de quem enfrentou ditaduras com o peito aberto e o tambor na mão. É um bloco de negros para negros, um manifesto vivo que exige, e recebe, um respeito que silencia até o mais ferino dos críticos. Uma honra para os olhos.
Para aguentar essa loucura, só o Gelin, o energético que já vem no ponto de bala para te devolver o juízo (ou tirar o que resta dele). Há membros da nossa equipe que parecem ter confundido o estoque de Gelin com água mineral. Se virem alguém da produção tentando subir em postes, já sabem que a energiafoi além da conta. Bebam com moderação, se é que essa palavra existe em fevereiro.
Para fechar a conta de ontem, Igor Santana provou que é um camaleão musical, mas não larga o osso do samba. Ele circulou por todos os ritmos ontem, mas o samba continuou sendo sua morada. Dizem por aí que ele troca de ritmo mais rápido que folião troca de promessa de fidelidade.
Quem sobreviverá ao dia de hoje? Estarei observando!




