O baianês não é só um jeito de falar; é cultura, história e identidade. Palavras como ‘’dengo’’ (afeto gostoso) e ‘’xodó’’ (amor que arde) vêm do iorubá, língua trazida por africanos escravizados, e são marcas da Bahia, mas, fora daqui, muitas vezes são vistas como exotismo. Nosso vocabulário baiano é um museu vivo e expressões como ‘’comer água’’ (beber álcool), ‘’abrir o gás’’ (ir embora) e ‘’demorô’’ (vamos agora!) carregam criatividade e ancestralidade, mas, ao cruzarem fronteiras, costumam ser recebidas com estranheza ou até ridicularizadas
Nos últimos dias o Brasil parou para discutir se pomba suja é ofensa depois que um baiano no BBB 2025 usou a expressão. Para quem é daqui, o significado depende da entonação: pode ser uma brincadeira entre amigos ou uma ofensa em uma briga. Mas a questão vai além do reality, pois esse debate escancara um padrão: gírias nordestinas sempre precisam de explicação, enquanto as expressões do eixo Sudeste-Sul são vistas como naturais e representantes da cultura pop.
Por que um sotaque é cultura e outro, “preconceito”? Neste país multicultural, enquanto um sotaque domina telejornais e novelas como “padrão neutro”, o “baianês” é reduzido a caricaturas. Não por acaso, candidatos nordestinos em seleções de emprego são pressionados a “neutralizar” a fala para parecerem ‘’mais profissionais’’. Nesse caso, a riqueza linguística celebrada nos trios elétricos vira obstáculo no mercado de trabalho, como se herança cultural significasse incompetência.
Linguagem é contexto, mas também é poder e o que soa natural para uns pode parecer ofensivo para outros. E será que quem estranha quer mesmo entender ou apenas julgar quem está falando?
E você, o que acha? ‘’Pomba suja’’ passou do limite ou o Brasil precisa mesmo é escutar sem colocar na frente os preconceitos? Bora trocar essa ideia!