“Nós vencemos a pandemia, não perdemos a nossa fé”, comemorou o morador da Olaria, Jeferson Lima. De branco e azul com os pés descalços, Jeferson participava do cortejo que levava o balaio, na orla de Amaralina, com o destino a casa de Pai Careca.
Após hiato de dois anos, por causa da pandemia da Covid-19, o Presente de Amaralina, a tradicional festa dos pescadores da Colônia Z1, aconteceu na tarde deste domingo (22). A celebração reúne religiosos, simpatizantes, curiosos e moradores do Nordeste de Amaralina, onde realizam cortejo e entrega de presentes para Iemanjá.

A procissão começou por volta das 15h, ao som dos atabaques, o Afoxé Bamboxé fizeram parte do cortejo. Almir Odun Ará, integrante da banda, relatou que dos seus 40 anos de idade, desde os 16 anos conhece o Presente de Amaralina.
“A partir do Presente, eu conheci as primeiras músicas, as cantigas, foi aí que começou a minha relação com a cultura afro-brasileira, a partir disso, eu entendi a importância de defender a cultura popular”, contou Almir.

Às 16h, o cortejo chegou a casa de Pai Careca de Ogum, babalorixá responsável pela parte religiosa da festa, situada na Rua do Balneário. A procissão seguiu até a colônia dos pescadores, onde foi realizada um Xirê, roda ou dança para evocação dos Orixás.
Após a reza, participantes foram em direção a embarcação nas águas de Amaralina e entregaram os presentes à Rainha das Águas.
“Mais um ano de batalha, de fé, de muito amor, muita dedicação, nós fizemos essa festa muito bonita com a população do Nordeste de Amaralina. Não perdemos a fé, foram dois anos sem essa festa maravilhosa, mas estamos aqui, ano que vem vamos fazer bem melhor, Odoyá minha mãe, Odoyá”, comemorou Pai Careca ao NES.

O pescador Alexandre Costa, conhecido como Kiko, que esteve à frente do evento, explicou o prazer de realizar a festa, apesar da parada que ocorreu por causa da pandemia, os pescadores se reuniram para pedir ajuda a comunidade para realização do Presente de Amaralina.
“É um prazer imenso estar compartilhando com todo Nordeste de Amaralina para fazer a festa tão bonita que ocorre nesse momento”, explicou.
A moradora Maria Creusa, que ajudou na preparação do Presente, contou para equipe do NES que antes de ir para a festa foi a Basílica do Senhor do Bonfim, para agradecer por vencer um câncer de mama.
“Foi ótimo fazer parte dessa festa, tudo o que a gente faz com amor e de coração, é maravilhoso. Tem oito anos que venci o câncer, tô curada em nome do senhor e de Iemanjá”, explicou.
HISTÓRIA – A tradição já dura 45 anos. Os mais antigos explicam que a festa começou na década de 70, quando a construção de um emissário submarino no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho, acarretou com a mudança de local da colônia de pesca do bairro. Os pescadores então se dividiram: enquanto uma parte migrou para o Largo de Santana, um outro grupo se alojou em Amaralina. Surgiu assim a colônia de pesca Z1. Se, aproximadamente desde o ano de 1923 (segundo o historiador Cid Teixeira), os pescadores já tinham o hábito de cultuar Iemanjá e fazer a entrega do presente no dia 2 de fevereiro, os pescadores assentados na nova colônia criaram a tradição do presente de Amaralina. A data escolhida foi o primeiro domingo após a lavagem do Bonfim. No livro “ Traços e Laços – Memórias da Região do Nordeste de Amaralina”, Dona Carmelita Santos, antiga moradora do bairro e frequentadora assídua da celebração, explica que “a festa do Rio Vermelho era “beber e se divertir”, e na Amaralina para dar o presente a Iemanjá”. Entre o final dos anos setenta e medo dos anos 90 a entrega do presente de Amaralina era cercada de grande expectativa na comunidade. Palco, barracas de bebidas e comidas movimentava toda a região da praia. O sagrado e o profano se misturavam. O alvoroço começava no sábado à noite e culminava com a entrega dos balaios no meio da tarde de domingo.




