O cantor Vinny Nogueira, uma das grandes apostas do pagode baiano e que divide o hit do momento com Léo Santana, comandou uma pipoca, arrastando uma multidão. Para o artista, no entanto, o show teve um significado de retorno às suas raízes.
Ao passar pelo camarote oficial, Vinny não recordou que o Nordeste de Amaralina foi o cenário de suas férias e de grandes memórias de infância. “Passou um filme na minha cabeça. Eu vinha para cá quando era molequinho, passava minhas férias aqui. Ia no mercado, fazia farra, ia para a praia e voltava. Estar aqui hoje para trabalhar e fazer a festa dessa galera que merece tanto é muito importante para mim”, revelou o cantor.
Vinny relembrou com carinho de um amigo próximo, morador do bairro, que já faleceu. “Vem aquele mix de sentimentos. A gente fica triste pela ausência de quem partiu, mas feliz por estar aqui fazendo o trabalho pelo qual tanto lutamos. Ver o carinho e o olhar dessa galera não tem preço. Eu sou muito feliz de estar aqui”, desabafou Vinny
[18/02, 01:51] Robert Nes: O povo do Nordeste fez o maior carnaval de rua da história
Disseram que não ia ter. Tentaram, através do medo e de operações que cercaram nossas esquinas dias antes, calar o tambor. O recado era claro: “fiquem em casa, aqui não é lugar de festa”. Mas quem não conhece o Nordeste de Amaralina não entende que a gente não celebra apenas porque quer, a gente celebra porque precisa.
O Carnaval do Circuito Mestre Bimba nasceu do povo e para o povo. E, em 2026, ele foi um ato de rebeldia. Ouvir de quem só aparece aqui de quatro em quatro anos, pedindo voto, que “não havia motivo para festa”, foi o combustível que faltava. O povo não esquece quem vira as costas na hora do aperto. Se o prefeito não viu motivo, a comunidade criou o seu: a sobrevivência.
O que vimos foi histórico. Não foram apenas blocos passando, foi uma engrenagem de resistência que movimentou a alma da favela. Tivemos uma estimativa de público de mais de 400 mil pessoas passaram pelo circuito nos dias de folia (uma média de 80 mil por dia). Foram quase 120 horas de música ininterrupta. Milhares de ambulantes e catadores que, num sol de rachar, garantiram que a festa acontecesse enquanto botavam comida na mesa.
O Nordeste contou suas histórias. E nós tentamos transmiti-las com nossas câmeras, nossas palavras e nossa responsabilidade. Tivemos espaço na Rede Bahia, no A Tarde, na Bahia FM. Portais oficiais, por alguns momentos, olharam para nossa comunidade com outro olhar. Não como problema, mas como potência.
Vimos o Olodum e o Ilê Aiyê descendo nossas ruas, trazendo a nobreza que o estado tenta nos tirar. Mas vimos, acima de tudo, o cuidado. O cordeiro que protegia o vizinho, o morador que oferecia água, as mídias comunitárias que, juntas, foram o megafone de uma verdade que a TV aberta demorou a enxergar.
Se alguém quer entender o que é o Nordeste de Amaralina, precisa olhar para o Arrastão do NES. Quando Simone Morena subiu no trio, o que se ouviu não foi só arrochadeira. Foi um grito de alívio coletivo.
Para um povo que tem pouco acesso ao lazer e que vive sob a tensão constante, cada batida do grave era um soco no preconceito. O carinho que a multidão entregou para Simone era recíproco, ela cantava a nossa vida, e a gente devolvia com um grito de alívio. Ali, naquele mar de gente, não existia operação policial, não existia abandono político. Existia apenas o triunfo de quem é feliz “por teimosia”.
Esse carnaval não foi só festa. Foi resposta. Foi memória. Foi futuro sendo desenhado na rua. A gente mostrou para o mundo que o Nordeste não é página policial. O Nordeste é cultura, é gestão própria e é amor. O Carnaval acabou, mas o nosso recado ficou gravado no asfalto: nós somos os donos da rua.




