Levantamento do NORDESTeuSOU reúne dez ocorrências registradas entre março e julho de 2026 e mostra como o crescimento do trabalho por aplicativo, a condução irregular e as manobras em vias públicas ampliam os riscos para motociclistas, pedestres e moradores da comunidade.

Em apenas cinco meses, o Complexo do Nordeste de Amaralina registrou 10 ocorrências envolvendo motocicletas, que resultaram em oito mortes, além de um motociclista internado em estado grave, um ciclista gravemente ferido e dois pedestres atropelados, sendo um deles vítima fatal. O cenário reforça a necessidade de discutir segurança viária em uma comunidade onde a motocicleta se tornou indispensável para a mobilidade e para o sustento de centenas de famílias.
O levantamento realizado pelo NORDESTeuSOU, com base em reportagens publicadas pelo portal e informações de órgãos oficiais, mostra que os acidentes ocorreram tanto nas vias internas da comunidade quanto em importantes corredores de Salvador, como as avenidas ACM, Juracy Magalhães e Otávio Mangabeira. Entre as vítimas estão entregadores por aplicativo, motoboys, mototaxistas e moradores da região.
Os registros apontam diferentes tipos de ocorrências, como colisões contra postes e veículos, atropelamentos de pedestres, acidentes durante jornadas de trabalho e quedas em ladeiras. Um dos dias mais críticos foi 6 de junho, quando dois acidentes foram registrados em menos de quatro horas, antes de uma colisão entre uma motocicleta e uma bicicleta deixar um motociclista morto e o ciclista gravemente ferido na Ladeira da Santa Cruz.
O crescimento dos aplicativos de entrega fez da motocicleta uma das principais ferramentas de trabalho para muitos moradores do Complexo. A rotina, no entanto, é marcada por longas jornadas, pressão por tempo e exposição constante aos riscos do trânsito.
“A rotina do entregador exige atenção constante. Trabalhamos sob a pressão do tempo do aplicativo para garantir o faturamento diário. Qualquer imprudência, seja por pressa ou falta de experiência, pode custar a vida de quem está no guidão ou de quem está atravessando a rua”, relata Alisson Marques, entregador por aplicativo e morador do Nordeste de Amaralina.
A busca por renda também faz com que adolescentes menores de idade conduzam motocicletas sem possuir Carteira Nacional de Habilitação (CNH), prática proibida pelo Código de Trânsito Brasileiro.
“Comecei a fazer entregas com 16 anos porque precisava levar dinheiro para casa. Não tenho habilitação por causa da idade, mas foi o meio que encontrei para trabalhar honestamente e garantir meu sustento. Sei dos riscos, mas preciso da renda”, conta um jovem entregador da comunidade que prefere não se identificar.
“É positivo ver um jovem buscando uma ocupação honesta em vez de seguir caminhos errados. Mas a falta de habilitação e de preparo no trânsito preocupa e coloca todos em risco”, afirma Claudionor Ferreira, morador favorável ao trabalho dos jovens, mas defensor da regulamentação.
Já outro morador reforça que a segurança deve vir em primeiro lugar. “A lei existe para proteger vidas. Conduzir uma moto sem habilitação coloca em risco quem pilota, quem está na garupa e quem circula pelas ruas da comunidade.”
Outro ponto levantado pelo estudo é a prática do “grau” em vias públicas. Embora a modalidade tenha passado a contar com um espaço regulamentado na Bahia, equipado com estrutura de segurança e destinado à prática esportiva, as manobras continuam sendo realizadas nas ruas do Complexo do Nordeste de Amaralina.
“O esporte deve acontecer em locais apropriados, com equipamentos de proteção e regras de segurança. Nas ruas da comunidade, o grau coloca a vida de moradores, crianças e idosos em perigo”, destaca Maria Conceição, moradora da Rua 11 de Novembro.
Além das perdas humanas, os acidentes aumentam a pressão sobre a rede pública de saúde. As vítimas com ferimentos graves são encaminhadas, em sua maioria, ao Hospital Geral do Estado (HGE), referência em traumatologia, onde frequentemente necessitam de cirurgias complexas e leitos de UTI.
O levantamento conclui que reduzir esse cenário passa pela combinação de fiscalização, educação no trânsito, melhorias na infraestrutura viária, combate à condução por pessoas não habilitadas e fortalecimento de campanhas de conscientização voltadas principalmente aos trabalhadores que utilizam motocicletas como instrumento de trabalho.
Os números da retrospectiva:
- 10 ocorrências envolvendo motocicletas registradas entre março e julho de 2026;
- 8 mortes relacionadas aos acidentes;
- 1 motociclista internado em estado grave;
- 2 pedestres atropelados, sendo um deles morto;
- 1 ciclista gravemente ferido;
- 2 acidentes registrados em menos de quatro horas no dia 6 de junho.




