O Dia das Mães deveria ser marcado por abraços, encontros, almoço em família e celebração da vida. Mas, nas periferias de Salvador, muitas mães vão passar essa data em silêncio, olhando para uma cadeira vazia dentro de casa. Mais uma vez, a favela amanhece de luto.
Na última sexta-feira (8), um jovem de apenas 19 anos perdeu a vida durante uma ação policial no bairro de Valéria. Segundo familiares, ele tentou proteger a própria mãe, que estava sendo ameaçada durante a invasão da casa. Em meio ao desespero, tiros, medo e violência, a vida de Lucas foi interrompida cedo demais.
E agora fica uma mãe sem o filho.
Fica um quarto vazio.
Fica o silêncio.
Fica a dor que nunca vai embora.
Isso não é a lei da vida.
É a lei da violência.
Enquanto autoridades discutem números, estatísticas e operações, mães da favela continuam enterrando seus filhos. E a pergunta continua ecoando dentro das comunidades:
De quem é a culpa?
Da polícia?
Do tráfico?
Do abandono?
Da falta de oportunidade?
A verdade é que a juventude periférica cresce cercada por ausências. Falta oportunidade de verdade. Falta acesso. Falta investimento. Falta cultura, esporte, educação, emprego e perspectiva. Muito se fala em segurança pública, mas pouco se fala sobre construir caminhos reais para impedir que nossos jovens sejam empurrados para a violência ou se tornem vítimas dela.
Quantos Lucas ainda vão precisar morrer?
Quantas mães ainda vão precisar transformar o Dia das Mães em dia de luto?
O que aconteceu em Valéria não acontece só em Valéria. A dor atravessa bairros, becos e vielas de toda Salvador. Aqui no Nordeste de Amaralina, a gente sente porque poderia ser um dos nossos. Porque quando um jovem da favela morre, toda a periferia sangra junto.
Lucas tinha nome, história, família e sonhos. Não era apenas mais um número em uma ocorrência policial.
Era filho de alguém.
E nenhuma mãe deveria precisar sobreviver à dor de perder um filho para a violência.
Neste Dia das Mães, nossa solidariedade vai para todas as mães periféricas que resistem diariamente ao medo de receber a pior notícia. Que a dor delas não seja normalizada. Que a vida dos jovens da favela tenha valor. E que um dia a juventude negra e periférica possa sonhar com o futuro sem precisar sobreviver a ele todos os dias.




