Considerado um dos maiores festivais de cultura negra do mundo, o AFROPUNK chega a mais uma edição em Salvador. Enquanto boa parte dos festivais de música se concentra no eixo Rio-São Paulo, o evento segue um caminho diferente ao trazer para a capital baiana a experiência de um movimento cultural nascido nas ruas do Brooklyn, em Nova York. O evento acontece no Parque de Exposições, em Salvador. Os ingressos estão disponíveis na plataforma oficial de vendas, a IDW Tickets.
Com dois dias de programação, o festival reúne, no sábado, 7, Jorja Smith, Flo, Emicida, Ajulliacosta, Lazzo, Edcity Fantasmão, Telefunksoul e Paredão. Já no domingo, 8, sobem ao palco Kehlani, Kelela, Gilberto Gil, Gaby Amarantos, NandaTsunami, Criolo (com o show Nó na Orelha), DJ Belle e Paredão. Entre as atrações internacionais, Jorja Smith é um dos destaques do R&B contemporâneo, com uma trajetória marcada pela mistura de soul e diferentes vertentes da música negra.
O grupo britânico Flo e a cantora norte-americana Kehlani, que transita entre o R&B e o pop, também integram a programação. Outra presença é Kelela, artista norte-americana conhecida por combinar R&B, música eletrônica e experimentação sonora.
Para Ana Amélia Nunes, sócia da IDW Company, responsável pela realização do AFROPUNK Brasil, a presença do festival em Salvador envolve um processo de adaptação às características culturais da cidade, sem perder a conexão com sua origem internacional.
“A própria chegada do AFROPUNK em Salvador mostra que, desde o início, é feito um processo de localização, e não apenas de tradução. Mantivemos o DNA das edições internacionais, mas adicionamos o molho baiano, entendendo quais seriam as especificidades que um festival na cidade mais negra fora da África atenderia. Essa ideia de localização se alarga a todas as edições do AFROPUNK Experience que, mesmo estando em diferentes cidades, carregam no DNA o mesmo compromisso em valorizar a cultura negra”, afirma.
Brotar das sementes
A trajetória de Lazzo Matumbi está intimamente ligada à história da música negra na Bahia. Com mais de quatro décadas de atuação, o cantor acompanha as transformações na presença de artistas negros nos palcos e nos espaços de visibilidade. Para ele, participar do AFROPUNK Brasil é uma forma de reafirmar a força dessa produção musical.
“Ocupar o AFROPUNK é uma declaração de amor e soberania. É o reconhecimento de que a música negra brasileira é vanguarda, é o coração pulsante da cultura deste país”, afirma.
Ao olhar para o caminho percorrido, Lazzo destaca a atuação dos blocos afro e de artistas que, desde as décadas anteriores, reivindicavam espaço e reconhecimento para a cultura negra nas ruas de Salvador. A presença de um festival de alcance internacional, com a participação de diferentes gerações de artistas negros, representa, para ele, um sinal de que essa luta continua produzindo resultados.
“Ver a nossa semente brotar e dar frutos desse jeito é de uma emoção maravilhosa! Quando a gente começou lá atrás, com o Ilê Aiyê, com os blocos afro, cantando a nossa verdade, que vinha dos terreiros sagrados, nas ruas, nas praças de Salvador, a gente lutava por mais espaço, visibilidade e dignidade pra nossa gente e pra ver nossa imagem mais respeitada”, relembra.
Para o cantor, a presença da juventude negra em grandes palcos também evidencia mudanças na maneira como esses artistas constroem suas trajetórias. Ele avalia que, atualmente, há mais possibilidades de atuação independente e de participação nas decisões sobre a própria produção artística, embora as desigualdades estruturais ainda imponham obstáculos.
“Muita coisa mudou, graças aos Deuses Ancestrais! Antigamente, o artista negro que alcançava os grandes meios de comunicação muitas vezes precisava se enquadrar em moldes que não eram os nossos, ou ficava relegado a nichos específicos. Hoje, a nossa representatividade acontece de dentro para fora, de forma mais consciente, com a força da nossa cultura, nossa arte, nosso discurso e a nossa postura sendo colocadas com mais autonomia”, afirma.
Apesar dos avanços, Lazzo chama a atenção para as barreiras de acesso ao financiamento, aos espaços de decisão e aos grandes veículos de comunicação. Para ele, é necessário garantir condições econômicas e mercadológicas para artistas que mantêm a cultura negra viva, inclusive aqueles que atuam nas bases, nos blocos afro e nos terreiros. “Os desafios ainda são grandes, por conta da estrutura racista ainda existente neste país, que não desaparece do dia para a noite”, pontua.8




