Em meio às transformações do cotidiano e às mudanças nos hábitos comunitários, a tradição da trezena de Santo Antônio segue resistindo no Nordeste de Amaralina graças ao empenho de moradores como Everaldo Borges, de 57 anos. Católico e apaixonado pelas manifestações populares, ele mantém há mais de 20 anos a celebração dedicada ao santo.
A devoção de Everaldo nasceu ainda quando era menino, no bairro de Amaralina. Morando próximo ao Coqueiral, ele acompanhava uma vizinha rezadeira que realizava a tradicional trezena, composta por 13 noites de oração em homenagem a Santo Antônio.
“Desde garoto eu frequentava as trezenas. Cada noite era organizada por uma família diferente, que chamavam de ‘donos da noite’. Havia reza, comidas típicas e muita participação da comunidade. Foi ali que aprendi a gostar de Santo Antônio”, relembra.
Naquele tempo, a celebração era também um momento de convivência. Após as orações, eram servidos mingau, amendoim e outras iguarias juninas. As crianças, como o próprio Everaldo na época, percorriam as diferentes casas do bairro participando das festividades.
“A gente ia de uma casa para outra. Era uma alegria. Ia filar um mingau aqui, outro ali, e acabava participando das 13 noites”, conta, sorrindo.
Tradição na Olaria
A ligação de Everaldo com a comunidade da Olaria começou em 1996, quando conheceu sua esposa, Ana Lúcia de Jesus. Poucos anos depois, entre 2001 e 2002, ele iniciou a realização da trezena no local.
Inicialmente, organizava os três últimos dias da celebração, 11, 12 e 13 de junho, data dedicada a Santo Antônio. Com o passar dos anos e a diminuição do envolvimento comunitário, a tradição precisou ser adaptada.
“Antes a comunidade abraçava mais a festa. Depois, as pessoas foram se afastando e ficou mais desgastante. Mas para não deixar a tradição morrer, eu mantenho pelo menos uma noite”, explica.
Atualmente, o encontro costuma ser realizado no sábado mais próximo ao dia 13 de junho. Neste ano, por conta da coincidência com um jogo da Seleção Brasileira, a celebração foi antecipada para o dia 12.

Fé, partilha e diversidade religiosa
Mesmo com formato reduzido, a essência comunitária permanece. Amigos e vizinhos colaboram para a realização da festa: as mulheres levam bandejas com comidas típicas e os homens contribuem com litros de licor, compartilhados após a reza.
“A gente distribui a comida para a meninada da comunidade e para todos que participam. É um momento de união”, afirma.
Outro elemento marcante da celebração é o preparo anual de cinco quilos de feijão mulatinho, uma referência ao sincretismo religioso presente na cultura baiana. Everaldo associa o prato a Ogum, orixá frequentemente relacionado a Santo Antônio em algumas tradições afro-brasileiras.
Católico, ele ressalta que a iniciativa é também uma expressão de respeito à diversidade religiosa.
“Sou católico, mas respeito o candomblé. Já frequentei também e até igreja evangélica. Onde me chamam, eu vou. Não tenho distinção. Todo mundo participa, experimenta o feijão, acompanha a reza. No fim das contas, dá tudo certo.”, diz.
Nos últimos anos, Everaldo também passou a conduzir pessoalmente a reza de Santo Antônio. Antes, a celebração contava com a ajuda de familiares e amigos.
“Nós tínhamos várias pessoas que tiravam a reza para mim. Começou com minhas irmãs, que hoje são evangélicas e não fazem mais. Tinha também outras pessoas que já faleceram. Uma noite eu tive um sonho com Santo Antônio. A partir daquele sonho, coloquei na cabeça que eu mesmo ia tirar minha reza”, conta.




